sexta-feira, 10 de junho de 2011

ESCRITORES DE CAMOCIM - FROTA AGUIAR

Ele é nome de rua no Rio de Janeiro na Vila Valqueire. Na área da segurança pública foi delegado de polícia da "Cidade Maravilhosa". Parlamentar, foi o primeiro Presidente de uma CPI no Brasil, a que investigava a participação do Governo Vargas no caso dos empréstimos generosos ao jornal "Última Hora". Anésio Frota Aguiar nasceu em Camocim em 7/8/1901 e faleceu no Rio de Janeiro em 30/11/1996. Advogado, político e escritor em suas memórias, fala de uma "Camocim enamorada do sol". Trabalhou na E. F. Central do Brasil. Presidente do Instituto de Previdência do Estado do Rio de Janeiro. Foi vereador e deputado federal (de 1952 a 1960) pelo Distrito Federal (Rio de Janeiro). Deputado estadual pelo Estado da Guanabara. Escreveu vários livros, com destaque para "O ültimo Canto do Cisne", publicado em 1993. É mais um camocinense esquecido em seu torrão natal. O motivo da postagem é para inaugurar uma nova seção no blog, de textos antigos e recentes de escritores camocinenses que eternizaram o lugar através da escrita. Futuramente estaremos divulgando estes textos, principalmente aos domingos, dia propício para as lembranças de quem, por um motivo ou outro, está longe da terra que os viu nascer.

Foto: Frota Aguiar discursando na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, em homenagem ao Dia do Policial. Fonte: Contracapa do Livro "Os Bravos Anônimos" de autoria de Frota Aguiar.

NO OLHO DA RUA - ENGENHEIRO PRIVAT


Antes que algum parlamentar resolva mudar o nome da Rua Engenheiro Privat, (que já se chamou 15 de novembro)para um nome de parente ou aderente, vamos focalizar uma das mais antigas ruas de Camocim. Metamorfoseada pela construção da Estrada de Ferro de Sobral, o traçado urbano da então vila, privilegiou o estilo "xadrex", com algumas variações. A Rua Engenheiro Privat, faz parte do núcleo que se formou em torno da Estação Ferroviária e do Porto, centro das atividades comerciais desde o final do século XIX, ainda hoje perceptíveis por um casario que ainda conserva alguma lembrança desses tempos, hoje muito abalada pela especulação imobiliária. Nessa rua já funcionou o Cine Teatro Fênix, sede do Banco do Brasil e Camocim Club (no casarão do imortal Artur Queirós), o inesquecível Cine João Veras, a sede própria do Camocim Club, hoje à venda, Mercearia Serrote, Casa da Revista, a firma comercial, V. Aguiar & Cia, um posto de gasolina, as pensões familiares e pequenos hotéis, dentre outros, do tempo do trem e dos navios. O nome é em homenagem a um dos diretores que abriram a ferrovia em 1881, Engenheiro Dr. José Privat, que também fez o projeto da Igreja Matriz de Camocim, nessa mesma época. Os restos mortais do citado engenheiro jazem na Igreja da Matriz de Bom Jesus dos Navegantes, relembrando um tempo em que membros da elite eram enterrados nas igrejas.

Foto: Arquivo do blog.

terça-feira, 7 de junho de 2011

A CENSURA EM CAMOCIM

Esperando o desenrolar dos acontecimentos que envolvem o processo do Prefeito de Barroquinha contra o blogueiro Tadeu Nogueira, lembrei do que passou um professor (sem nenhuma alusão ao alcaide da antiga Paço Imperial) na década de 1930 em Camocim. Tratava-se do Professor Francisco Theodoro Rodrigues que por aqui fundou o Collegio 05 de Julho (que abordarei em postagem futura), ensinando as crianças e rapazes da cidade. Acontece que este mesmo professor fundou um jornal "O Operário", e de quebra, foi um dos fundadores do PCB em Camocim. Não tardou em ser perseguido pelos chamados "burgueses" da época. Recuperemos um pouco da pena de "Chico Teodoro" (ô terra prá dar Chico) num editorial do seu jornal:

COMO AGEM OS BURGUEZES

Os burguezes tem lançado mão de todos os meios para que eu abandone Camocim. tem feito um boycote terrivel ao humilde jornal que dirijo. Este boycote começou desde o momento que reconheceram que o mesmo jornal não elogiava Moreirinha, Mattos Peixoto, Washington Luís, Getúlio Vargas, Juarez e outros políticos. Aos poucos as pessoas que dependiam da burguezia foram deixando as assignaturas, outros deixando de publicar annuncios no “O Operario”.(...). Vendo que “O Operário” continua a circular, os burguezes se exasperam e lançam mão de outro recurso: boycotam a escola que dirijo, à qual, seguindo a praxe do logar, de cada escola ter o nome de collegio, dei o nome de COLLEGIO 05 DE JULHO. Boycotaram retirando os seus filhos, ficando eu somente leccionando os filhos de operarios e pequenos comerciantes.(...) Communismo também não ensino em minhas aulas, porque as leis burguezas me creariam uma situação de arrôcho.(...) Pelo bem, pelo conforto dos lares pobres, pela igualdade social tudo tenho feito e farei. E por assim proceder vejo-me na imminencia de perder o único meio que me mantenho com a minha família. (...) Esse crime dos burguezes de cerciarem os meios de vida dos proletarios conscientes, deixando morrer de fome seus filhinhos é tão grande que jamais poderá ser perdoado!(...) (O Operário”, Anno IV, No. 75, 18 de janeiro de 1931, p.1. Camocim-Ce. In: Processo No. 394. Apelação: 460. Vol.2. Fundo/coleção: TSN. Ano: 1938. Arquivo Nacional).

OS COMITÊS ANTICOMUNISTAS EM CAMOCIM

Vez por outra sou criticado e até desacatado por comentaristas no blog Camocim Online quando o Tadeu Nogueira resolve repercurtir as matérias que se referem à militância comunista em Camocim, postadas no "Pote de Histórias". Uma pesquisa acadêmica séria, apesar de feita por pessoas que tem suas preferências ideológicas, não deve fazer proselitismo. No meu caso, ao enfocar a militância comunista, tive que ver o embate e o combate a essas ideias. Neste sentido, a pedido de meu orientador, escrevi na época o verbete abaixo, incluso no DICIONÁRIO CRÍTICO DO PENSAMENTO DA DIREITA. Idéias, instituições e personagens/ organizadores: Francisco Carlos Teixeira da Silva, Sabrina Evangelista Medeiros, Alexander Martins Vianna. – Rio de Janeiro: FAPERJ: Mauad, 2000, p.91-2.

COMITÊS ANTI-COMUNISTAS

Surgem no Ceará como conseqüência da campanha anticomunista promovida em especial pela Igreja Católica através de seus jornais, principalmente, O Nordeste de Fortaleza e Correio da Semana de Sobral. Desde a década de 1920 a reação católica ao comunismo no Ceará manifestava-se através de organismos patrocinados e inspirados pela Igreja católica, que se abrigavam nas associações pias (Liga Feminina de Ação Católica, Congregação dos Moços Marianos, Juventude Católica, dentre outras) com o objetivo de combater o chamado “perigo vermelho”, a “hidra de Moscou”, o “regimem de Stalin e Lenin” - expressões estas bastante correntes nas páginas dos jornais acima referidos. (v. Anticomunismo) Exemplo de organização desse movimento denominado Ação Católica foi Liga Eleitoral Católica –LEC, que no Ceará, tornou-se efetivamente um partido político de direita, abrigando os seus mais diversos setores, apoiando e recomendando candidatos, vencendo eleições. (v. Liga Eleitoral Católica no Ceará)

No período da efêmera legalidade do Partido Comunista, experimentada entre 1945-47, os comitês anticomunistas intensificaram o embate de ideologias, uma vaez que pretendiam conquistar o operariado para as suas hostes e, conseqüentemente, evitar que os comunistas plantassem sua semente nas “almas” dos operários. (v. Rerum Novarum) Portanto, para fazer frente às promessas de futuro apresentadas pelos comunistas, a Igreja buscou também realizar alguma ação concreta no sentido de atender materialmente e espiritualmente os “pobres incautos”. (Baderna & LE BOM, Gustave) Por isso mesmo, os comitês anticomunistas eram sempre instalados naquelas cidades onde o Partido Comunista possuía alguma base e desenvolvia algum trabalho de organização e assistência aos operários. A instalação de suas bases se dava após uma “cruzada” de evangelização, que durava por volta de uma semana, durante a qual os religiosos envolvidos visitavam as periferias das cidades, ministrando aulas de catecismo, realizando comícios, instalando postos de distribuição de medicamentos, arrecadando alimentos, entre outras iniciativas. Depois de criado este campo prévio de instalação, eram os comitês que passavam a realizar este trabalho. (v. Ideologia) As Semanas Sociais, como ficaram sendo chamadas esses eventos, tinham na área de jurisdição da diocese de Sobral (zona norte do Ceará) a sua maior penetração, sendo o Monsenhor Sabino Loyola o líder católico de maior proeminência, visto que nessa região, cidades como a própria Sobral, Viçosa do Ceará, Cariré, Crateús e, principalmente Camocim, tinham uma militância comunista bastante atuante. O jornal Correio da Semana teve papel destacado neste processo, dando ampla cobertura a essas semanas de catecismo e a posterior atuação dos comitês anticomunistas, cuja tática era de difundir um terror generalizado sobre os perigos do comunismo através de textos jornalísticos. Notadamente falseadas, as imagens criadas sobre a Rússia Soviética surgiam aos borbotões nas páginas desse jornal que ganhavam ares verossímeis por serem o resultado de supostos relatos de “enviados especiais” que teriam visto in loco as agruras do povo soviético. (v. Alteridade & Inimigo) Assim pareciam justificadas a luta contra o “perigo vermelho” e a organização das semanas sociais, que quebravam o cotidiano das cidades escolhidas para serem o seu palco.

A composição dos comitês anti-comunistas seguia também a tradição hierárquica da Igreja. Se tomarmos como exemplo, o comitê instalado em Camocim, veremos que o mesmo é composto pelas autoridades municipais, membros destacados das famílias tradicionais, enfim, o conservadorismo desde os tempos da LEC. (v. Conservadorismo no Brasil República) É essa composição que deverá agir no sentido de revelar a “verdade” dos fatos sobre o comunismo, são esses membros os “escolhidos” para atuarem junto à população “ignara”, “incauta”, que não sabe discernir sobre sua própria vida e, em determinados momentos, tornam-se o "partido da ordem". (v. Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade & Ação Social Brasileira).

OBS:

Os termos sublinhados são chaves de outros verbetes que de alguma forma remetem ao tema Comitês Anticomunistas, publicados na mesma obra.

FOTO: faperj.br


sábado, 4 de junho de 2011

O JOGO DO BICHO EM CAMOCIM

A exploração do jogo do bicho no Brasil, como sabemos, é objeto de polêmica e controvérsia. Em Camocim não é e não foi diferente. Em nossas pesquisas encontramos um processo envolvendo trabalhadores, a própria polícia como agente corruptor e explorador do jogo e a justiça, representada pelo promotor da cidade. Tal processo chegou a ser remetido à Procuradoria Geral do Estado, mas, ao que parece, não surtiu efeitos na exploração da jogatina. No processo, podemos perceber a geografia da exploração do jogo na cidade, descrita com detalhes. Nesse sentido, pode se pressupor que era realmente uma atividade econômica lucrativa, com diversidade de empreendedores e mão-de-obra, afora seu caráter lúdico: " ... que outras pessoas tem banca de jogo no Mercado Público nesta cidade: Antônio Boi Velho, Gerardo Frederico que banca o caipira para o Piragibe Faroleiro do Farol Trapiá do Porto desta cidade, que nesta cidade há uma casa de jogo de azar na qual é encarregado Alberto Queiroz, que na esquina do Mercado Público há outra casa de jogo de azar onde se joga de caipira e baralho (...) que nas Quatro Esquinas, há outra casa de jogo, cujo proprietário o declarante desconhece; que na rua da Praia há outra casa de jogo pertencente a Valdemar Bessa, que é filho do Sr. Inácio Prado; há outra casa de jogo que pertence a Odilon Rocha e está arrendada a Chaga Manelão, onde há jogo de caipira, de baralho, roleta e jogo do Bicho, cuja casa funciona noite e dia, durante as festas e todo dia nos dias comuns; que não sabe que quanto o Delegado de Polícia recebe por esses jogos, mas sabe que o Delegado recebe dinheiro por esses jogos; que Odilon Rocha arrenda por quartoze mil cruzeiros a sua casa de jogo ao Chagas Manelão, não sabendo quanto o Odilon paga ao Delegado.[1]

Na relação dos nomes citados, temos comerciantes, trabalhadores do porto, policiais, assim como das espécies de jogo de azar e o onipresente jogo do bicho. Na atual conjuntura capitalista, o jogo do bicho saiu das mãos de pequenos bancadores e passou para modernos empresários, que em conivência com a polícia e às vezes até com a justiça, continuam a oferecer a prática do jogo, condenado constitucionalmente. Depois de ler esta postagem, vá a banca mais próxima e faça uma "fezinha", quem sabe hoje não é seu dia de sorte?!


[1] Arquivo do Fórum Dr. Alcimor Aguiar Rocha. Autos de Declaração. Nº 768. Ano: 1962. Declarante: Francisco Antônio de Carvalho e outros.

Foto: Internet