domingo, 3 de novembro de 2019

OSWALDO CRUZ E SUAS IMPRESSÕES SOBRE CAMOCIM

Há muito tempo que procurava uma documentação sobre o Porto de Camocim, relativa a viagem empreendida pelo sanitarista Oswaldo Cruz no começo do século XX. A expedição ficou conhecida como a "Viagem aos Portos do Norte e Nordeste do Brasil" e desenrolou-se entre os anos 1905 a 1906. Com efeito, desde que assumira o posto de Diretor Geral de Saúde Pública em 1903, defendeu a necessidade de se levar para outras regiões do país as ações de saneamento que estavam sendo realizadas por ele no Rio de Janeiro. Assumira então o compromisso de que, tão logo fosse controlada a febre amarela na capital, iria se dedicar à reformulação dos serviços de saúde dos portos marítimos e fluviais brasileiros", no intuito de " promover a defesa sanitária de seus portos contra a invasão de doenças como o cólera e a peste bubônica".
Sabedor de que a expedição passara pelo Porto de Camocim, recorri a amigos no sentido de buscar essa documentação. No entanto, só agora a mesma está disponibilizada através das cartas que Oswaldo Cruz escrevia à sua esposa Emília Fonseca Cruz de cada porto por onde passava.
A viagem iniciou-se a "28 de setembro de 1905, acompanhado de seu secretário, o médico João Pedroso, Oswaldo Cruz embarcou no rebocador República rumo ao norte do país. Levava na bagagem um plano para a construção de hospitais de isolamento e de estações de desinfecção em cada local a ser visitado.
Experiência pioneira de contato com um Brasil praticamente desconhecido nos grandes centros urbanos, esse trabalho teria continuidade alguns anos depois com as expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz. Será principalmente a partir delas que o país tomará consciência da dramática realidade de sua gente mais sofrida: a população dos sertões brasileiros.
Sobre Camocim, Oswaldo Cruz, depois de enfrentado o  mar revolto típico de novembro ao chegar ao nosso porto, escreveu á sua mulher, dentre outros detalhes:

2 de novembro de 1905
"... Camocim, pequena cidade nova, porto importante do Ceará, ponto de partida duma estrada de ferro que vai a Ipu, passando por Granja e Sobral. Coisa interessante: eram 5 hs da manhã e todas as casas já estavam abertas e as famílias sentadas tomando café! Que madrugadores!"


Como resultado da viagem, o "chefe da DGSP anunciou que em Caravelas, Mossoró e Camocim seriam instaladas delegacias de saúde tendo em vista a importância desses portos e volume de transações comerciais que transcorriam lá. Providências significativas seriam tomadas nesses e nos demais portos: construção de estações de desinfecção para navios e desinfectórios para os passageiros e habitantes, hospitais de isolamento, fornecimento de barcos de desinfecção, com a nomeação de profissionais adequados a esses serviços. Tais ações de prevenção de doenças transmissíveis seriam iniciadas no ano de 1906, destinando-se a elas alguns milhares de contos (SAÚDE PÚBLICA, 1905, p.1). Há que se considerar que esse auspicioso plano geral de saneamento dos portos não veio a ser concretizado nos anos posteriores (FUNDAÇÃO, 2002,p.113)".














Fonte: BEZERRA, Mariza Pinheiro. NOS SERTÕES DO NORTE: SAÚDE PÚBLICA E SANEAMENTO NO MARANHÃO,(1889-1930). Rio de Janeiro. 2019.

sábado, 5 de outubro de 2019

LUÍS XIMENES, O PADRE FERROVIÁRIO DE CAMOCIM


Monsenhor Luís Ximenes. Fonte: A Voz de Santa Quitéria.

No quadro "RELIGIOSOS DE CAMOCIM", já destacamos um pouco da trajetória do Monsenhor Luís Ximenes.(sábado, 1 de dezembro de 2012 e quarta-feira, 30 de abril de 2014). É cognominado o "ÍCONE DA FÉ QUITERIENSE", nasceu ali na RUA DO EGITO (atual Rua 24 de Maio), entre as ruas General Tibúrcio e Tiradentes, de frente para o pátio de manobras da Estrada de Ferro. Ainda na faculdade, no final dos anos 1980, cheguei a trocar com ele poesias e ele me enviou alguns dos seus livros pelo colegas de Santa Quitéria. Quando fui ver sua casa-museu ele já não estava entre nós. Reverenciado e tido como santo em Santa Quitéria, em sua terra natal ainda não teve o devido reconhecimento. Ontem, por ocasião de seu aniversário natalício, o blog A Voz de Santa Quitéria publicou o seguinte texto:

Monsenhor Luís Ximenes nasceu em Camocim, em 05 de novembro de 1926. Filho de maquinista, desde cedo desenvolveu o seu gosto por trens, fortalecendo uma "alma ferroviária" que, ao longo do tempo, o fez colecionar quase tudo que se referisse ao tema e escrevesse alguns livros tendo os trens como temática.
Foi pároco em Santa Quitéria por mais de quatro décadas e até hoje, é venerado pela comunidade católica.
De alma simples e caridosa, o santo de Santa Quitéria partiu no trem da vida eterna logo após celebrar missa em 04 de outubro de 1994, acompanhando São Francisco, deixando muitas saudades, mas permanecendo vivo
nos corações quiterienses.

Para homenageá-lo, nós do CAMOCIM POTE DE HISTÓRIAS, transcrevemos um de seus poemas com a temática ferroviária:

Meu ídolo

De tanto ouvir teu clamoroso apito,
de tanto conviver pela estação,
fiquei teu fã e te tornaste um mito,
um ídolo de minha devoção.

De ti, meu velho trem, mesmo proscrito,
eu guardo tão feliz recordação,
que até parece praga do Maldito
te recordar em toda ocasião.

Correndo sobre os trilhos da lembrança,
ainda te vejo como outrora eu via,
o mesmo trem que eu vi quando criança.

Só que o olhar mudou. A vista cansa.
Ontem eu te via à luz de uma esperança,
Hoje eu te vejo à luz da nostalgia.


Fonte: http://www.jornaldepoesia.jor.br/peximenes.html
Fonte: A Voz de Santa Quitéria

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

O FAROL DO CAMOCIM, (IX SC 2019. 15)

Antigo Farol do Trapiá. Camocim-CE, Fonte: Facebook. Raimundo Gomes.


Hoje, 30 de setembro é o dia da Navegação. Neste sentido, um farol é sempre um marco para uma navegação segura. Em Camocim, os homens do mar agradecem esse ponto de luz que os trazem para casa na escuridão da noite. 
Já postamos algo sobre o nosso Farol do Trapiá, com fotografias fornecidas pela Marinha do Brasil. No entanto, hoje trazemos o antigo farol de um novo ângulo. Muito se fala sobre este local na beira da praia. Os mais velhos narram histórias curiosas de assombração, mas também de um tempo em que serviu como salão de festas e local de encontro amorosos.
O escritor Carlos Cardeal em seu romance "O Terra e Mar" (recentemente lançado em sua 2ª edição), o denomina Farol Sem Nome e muitas das cenas do livro tem nele a sua ambientação.
Atualmente, o farol continua lá, com o mesmo nome e função, no entanto, sem o charme da arquitetura de outrora em nome da "força da grana que ergue e destrói coisas belas".

FONTE: "O Terra e Mar".
Foto: Facebook. Raimundo Gomes.

domingo, 29 de setembro de 2019

CAMOCIM E O POETA LÍVIO BARRETO. (IX SC 2019. 14)


"Contos Camocinenses",Tela vencedora do 31º Salão de Artes de Camocim,
pintada por Chagas Albuquerque. 2019.

Para marcar o aniversário de Camocim, trazemos as impressões do maior poeta granjense - Lívio Barreto, escritas numa carta em 1894 enviada a um amigo. Guarda livros em Camocim da Companhia Maranhense de Navegação a Vapor, tendo ainda exercido sua profissão em Granja, Fortaleza e Santa Maria de Belém do Grão-Pará, o poeta se rende ao tédio crepuscular de uma tarde sem a azáfama característica dos portos. O documento dá uma idéia do espaço urbano de Camocim no final do século XIX. A correspondência de escritores cada vez mais vem sendo usada por historiadores como documentos que revelam não só a intimidade destes homens de letras, como de contexto histórico dos espaços onde atuavam.
Lívio Barreto. Lápis de Otacílio Azevedo. Fonte: deliviobarreto.blogspot.com

“Camocim, domingo, 2 de dezembro de 94.
am. Ulysses,

Abraço-te.
Li tua carta e respondo-a. Faço sinceros votos para que a saúde te tenha voltado ao corpo, e com ela a sentillante alegria que sempre iluminou o teu fino e nervoso rosto de bohemio.
Dou-te notícias de Camocim. Não te interessam? Pois tenha paciência. Isto aqui não é sertão nem é serra e assemelha-se à praia. A hora em que te escrevo, 5 da tarde, sopra um vento triste e frio de começo de inverno. A maré escua-se lentamente como n’uma agonia sem lamentos, E por traz das casas baixas d’este burgo o sol se embebe no poente, Esmorecido, sem esplendor, sem a pompa áurea dos acasos de verão.
Para minha frente, o rio (aqui diz-se mar),para as minhas costas o ... matto, e por toda a parte a areia, o pó. Que tédio! No porto o perfil alvacente e incaracterístico de uma escuna norueguesa ou o costado sujo de um vapor pernambucano.
Nos trapiches abandonados, atulhados de fardos de algodão, os rapazinhos pescam à luz moribunda da tarde, saccando d’água peixes pequenos que protestam estorcendo-se á ponta da linha com a fúria de um peixe!
Vista ao largo. A maré de vazante a barra não tem attractivos. É bom de ver-se quando ella enche, as mandas de ondas com suas jubas brancas de espumas, albalroando-se, desfazendo-se para se tornarem a formar, fazendo chegar até nós a surda melopéia longíqua do mar, o coro eterno das vagas.
Ainda á nossa frente, da outra banda, os mangues esbatidos, de um verde escuro á claridade mórbida e triste do fim do dia, trancam o horisonte com a longa sombra de sua folhagem escura, tão densa que atravez d’ella não se vê o sol quando de salteia, de manhã, em curtos vôos lentos uma garça põe com a brancura de sua plumagem uma nódoa de leite n’aquella tela cor de lodo, e rasando a ilha dos mangues, um braço do rio alonga-se matto a dentro, perdendo-se em meandros, esvahindo-se ao longe...
Da Granja, desce uma canoa de vasante, batendo os remos, como barbatanas, esguia e longa, com os seus dois remadores e o seu mestre apoiando o cotovelo sobre a cana do leme immóvel.
E sobre toda essa paysagem incolor, de uma monotonia de missa de dia de fazer, paira a aza pesada e sonnolenta do aborrecimento o mais medonho, do tédio o mais cruel!
Ah! se aquellas nuvens que ameaçam chuva se rasgassem agora, como eu iria me deitar satisfeito, ás 6 horas da tarde, fugindo a este enjôo que envenena como uma despepsia!
Adeus, abraço, etc.
Lívio Barreto”.

(Publicado no “O Literário”. Ano IV-Edição 02. Maio de 2002, p. 2. Camocim-CE).

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

A VALSA CAMOCINENSE. (IX SC 2019. 13)

Partitura da "Valsa Camocinense" de Raimundo Nonato de Araújo (Mundico). Foto: Arquivo Fábio Alves.


Quando Pinto Martins passou por Camocim em 1922, por ocasião do voo pioneiro entre Nova Iorque e Rio de Janeiro, a elite local lhe proporcionou uma festa no salão do Sport Club. A partitura acima é umas das raridades que sobreviveram deste tempo. Trata-se da "Valsa Camocinense", composta por Raimundo Nonato de Araújo (Mundico).  Tal música, conta-se, foi executada na época pela Banda Lyra Camocinense, na aludida festa, sob a batuta do maestro Luís de Moraes.
Hoje, 97 anos depois, a atual Banda Lira irá executar a mesma valsa por ocasião do lançamento do livro "Pinto Martins. Um voo na memória e história do aviador camocinense", no encerramento do 31º Salão de Artes de Camocim.
Segundo o maestro Miguel Arcanjo, além da peça musical contida na partitura, do acervo do pesquisador camocinense Fábio Alves, a mesma se reveste de importância por ter sido feito pelo copista João Inácio da Fonseca, conhecido nacionalmente entre as bandas de músicas, autor de inúmeras valsas e dobrados. Desde 1971 que a Banda Municipal de Maranguape leva o seu nome. 
Agora é só comparecer ao evento para conferir o som!