O Blog:

Amigos e conterrâneos camocinenses, a gente só dar o que tem. Quando pensamos editar um blog, este foi o pensamento: doar todo nosso esforço na construção de uma ferramenta como esta para a divulgação pura e simples da nossa história. Contudo, essa é uma oportunidade de todos participarem desta empreitada, seja comentando, sugerindo, corrigindo e, efetivamente, participando dessa grande viagem que a História nos proporciona. Que nosso "POTE" nunca encha e sacie a todos!!!

sábado, 29 de janeiro de 2011

A RADIOLA DA DISCÓRDIA E DA FESTA

Em nossas pesquisas sobre o mundo do trabalho em Camocim, encontramos coisas interessantes sobre as as agremiações sindicais, que se esforçavam para propiciar o mínimo de lazer para seu corpo de associados. Forrós, tertúlias e outras formas de diversão faziam parte das opções que as diretorias dos sindicatos tentavam oferecer. Pensando nisso, em plena crise dos trabalhos de estiva, o presidente do Sindicato dos Estivadores do Porto de Camocim, Veridiano Rosendo da Cruz, fez “uma narração eloqüente na esperança de ser compreendido por todos os sócios presentes e para compra de uma radiola altafidelidade para diversão dos sócios e suas famílias”. (SEPC/AAGE, de 9 de junho de 1970. Livro 2. Camocim-CE). O dinheiro para a compra do objeto em questão viria, segundo o presidente, do montante relativo às férias do período de dezembro de 1969 a maio de 1970. Contra essa proposição, alguns sócios se manifestaram, afirmando que o sindicato tinha outras prioridades como a compra de outros móveis, como telefone, mesa, toalha, estantes, bandeiras, cadeiras, birôs etc. O Presidente não desistiu do seu intento. Não podendo utilizar o dinheiro das férias dos sócios, abriu lista para quem quisesse “doar as suas férias para a compra da radiola”. As atas seguintes não dão notícias da compra da radiola especificando valores e marcas. Contudo, a compra foi efetivada. Vasculhando vários documentos do modesto arquivo do sindicato, encontrei dois que podem confirmar essa compra. O primeiro traz uma relação dos poucos discos disponíveis na discoteca do sindicato. O segundo trata de um regulamento do uso da radiola pelos sócios. O gosto musical dos estivadores parecia ser eclético. Em apenas quatro discos, várias amostras do nosso cancioneiro popular: Vejamos:

SINDICATO DOS ESTIVADORES DO PORTO DE CAMOCIM Relação dos discos da discoteca do Sindicato. 1- LP Nº 5287, de NELSON GONÇALVES, (RCA) 2- LP Nº 112278, Vol. VII, Os MELHORES DO SAMBA (OKEH) 3- LP Nº 137746, JERRY ADRIANI, (CBS) (Pensa em mim). 4- LP Nº EQC – 882/A (THE POP’S) (Rio Amigo). Camocim, 23 de Junho de 1972. VRC.

A simples regulamentação do uso da radiola informa muito mais do que normas a obedecer. Percebe-se que o presidente do sindicato aproveita a oportunidade para incutir nos associados as regras da manutenção da boa ordem do recinto sindical. Através do uso do objeto de consumo tão desejado na época, o presidente pretende controlar a ingestão de bebidas dos sócios, direciona o divertimento para o âmbito das relações familiares, de parentesco e amizade e do orgulho cívico, procurando resguardar a privacidade e um sentimento de pertencimento da categoria. A festa é feita pelos estivadores e para os estivadores. A citação completa do regulamento esclarece melhor:

REGULAMENTO A SER OBEDECIDO POR OCASIÃO DO USODA RADIOLA 1º - A radiola não será emprestada a particulares de vez que é patrimônio do sindicato. 2º - O associado poderá usar a radiola como empréstimo para caso de: aniversário ou casamento, seu ou de filhos, na sede dosindicato. 3º - Nas oportunidades dançantes, tem franco direito de participar o associado com sua esposa, filhos, irmãos e cunhados. 4º - Nas oportunidades dançantes o associado terá direito a admitir dois amigos de inteira confiança. 5º - Não será permitido nos momentos dançantes, nenhum associado, especialmente particulares dançarem vizivelmente alcoolizados. 6º - Nenhum particular poderá ingressar na sede do sindicato, nas oportunidades dançantes, sem ser previamente convidado por associados da entidade, com exceção das autoridades. 7º - É exclusivamente proibido a venda no sindicato, de aguardente, conhaque, etc. 8º - A radiola será usada nas oportunidades das datas cívicas, e de aniversário do sindicato, nos momentos de reuniões e quando se fizer necessário. Contando com a boa compreensão de todos os associados desta entidade pela manutenção da ordem, do respeito, em prol das nossas tranqüilidades nos nossos momentos recreativos. Agradece. A Diretoria. Em 05/07/72. VRC.

Foto: Radiola da marca Telefunken.
Disponível em: flog.clickgratis.com.br

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

NAU CATARINETA DE CAMOCIM

Janeiro está findando! E com ele imagino que a tradição do Reisado em Camocim está se perdendo com Dona Maria do Campo. No final dos anos 1990 a vi ainda com dois ou três abnegados tentando manter viva este folguedo de origem portuguesa. Quando conversei com ela na época, tive a certeza da falta de uma política pública para nossa cidade. Naquele momento. uma verba mínima para ajudar o grupo era tão irrisória, que me furto a declinar a quantia. Isso me traz à mente o quanto este povo é criativo e festeiro, relatando algo sobre uma manifestação artística de outrora, feita por gente simples, pelos trabalhadores do mar e da terra. Trata-se da Nau Catarineta de Camocim ou Marujada.

Capitão põe piloto em liberdade
Meu bom piloto se for livre já está
Meu bom piloto se for livre já está

Hoje é dia de festejo não costumo castigá.
Hoje é dia de festejo não costumo castigá.
(Nau Catarineta de Camocim. Mestre: Sebastião Marques. In: SERAINE, FLORIVA. Folclore brasileiro. Ceará. Rio de Janeiro: MEC/Funarte. 1978, p.73)

Um exemplo de como os trabalhadores são capazes de realizar seu próprio lazer, mediado pelas apropriações que fazem do que vêem em outros lugares ou do que chega até eles, é a Nau Catarineta de Camocim, registrada em obra sobre o folclore brasileiro.
Com uma miniatura de barca, os trabalhadores deixam as sedes e ganham as ruas representando seu cotidiano repleto das experiências e das relações vividas no interior dos navios. A festa da Nau Catarineta, portanto, expressa uma tradição que se transforma em cada porto, a ponto de existirem várias versões do folguedo por todo o país. É, portanto, no cotidiano do navio que essas manifestações nascem, posto que, como disse um estudioso, “é evidente que ele se tornou um local de encontros, onde se apinhavam várias tradições, numa estufa de internacionalismo de extraordinário vigor”.
Camocim teve a sua versão de Nau Catarineta. Segundo algumas informações, o folguedo era uma espécie de auto representado por personagens inspirados na tripulação de um navio, com cerca de trinta ou quarenta pessoas uniformizadas a caráter dançando ao som de música e versos ritmados, preservados na quadrinha em epígrafe no início deste tópico, e nas fugidias lembranças de velhos marinheiros, como o Sr. Euclides Negreiros, que foi testemunha das apresentações do folguedo:
"No Parazinho, por exemplo, nos dias de festa, Dia de São Pedro, eles levavam a Barca de São Pedro e quem conduzia (...) era o Cacau, o Cacau se fardava todo de branco, o meu irmão Valdemar e o mestre do rebocador eram os homens que conduziam a barca de São Pedro. Esta barca eu acho que nãoexiste mais..."
No final dos anos 1940, o estivador Sebastião Marques (o Sebastião Perna Grossa) organizava este folguedo e animava vários pontos da cidade. Infelizmente, não restou muito dessa festa, a não ser o registro na obra já referida e algumas parcas lembranças de depoentes que não ajudaram muito a reconstituir o sentido e a beleza da mesma. Talvez contemporaneamente, o fato de se levar ainda a imagem de São Pedro dentro de uma miniatura de canoa compondo o andor na procissão marítima seja uma reminiscência da Nau Catarineta de antigamente.
Foto: icebrasil.org.br

(Sobre outras manifestações dos trabalhadores camocinenses no campo da cultura, acesse o texto: "Os trabalhadores em festa..." na lateral do blog)

domingo, 23 de janeiro de 2011

UM PORTO DE MUITAS HISTÓRIAS

FOTO RARA MOSTRA O LITORAL CAMOCINENSE EM 1930

Em 28 de jundo de 2010, o blogueiro Tadeu Nogueira do Camocim Online escreveu a matéria abaixo descrita. Para tal matéria, no entanto, não foi dita a mão-de-obra da repórter em me localizar (já que não porto ainda a tão "espetacular" ferramenta - o celular). Na época eu estava no Cariri com meus alunos num encontro de historiadores. Finalmente feito o contato, falei quase meia hora com a referida jornalista e, contudo, muita coisa do que falamos não saiu. Entendendo os motivos da jornalista. Por isso, vez por outra, estaremos voltando a este assunto, pois, afinal de contas, é meu objeto de pesquisa, além de ter sido uma das molas mestras do passado econômico do município. No momento em que novos usos são dados, através da revitalização do espaço como Terminal Pesqueiro, estarei postando coisas da história do porto no sentido de mostrar aos camocinenses, a importância que o mesmo já teve para Camocim e para a economia do Ceará e do Nordeste brasileiro. Aguardem! Para já ir saciando a curiosidade, você pode conferir e baixar os textos referentes ao assunto na lateral esquerda do blog. Rememoremos a matéria do Camocim Online.

HISTÓRIA DO PORTO DE CAMOCIM GANHA DESTAQUE NO DN

Abrigo de ondas e correntes marinhas, o porto tem sido, ao longo dos séculos, a porta de entrada e saída de mercadorias, promovendo o desenvolvimento não só das cidades portuárias, como também das que serviam de entrepostos para o transporte da produção. No Ceará, do século XVIII até meados do século XX, Aracati e Camocim abrigavam os principais escoadouros da produção cearense. O declínio desses portos ocorreu com a centralização da atividade no Porto do Mucuripe, estabelecendo a primazia exportadora de Fortaleza.Antes disso, porém, era nos portos do Aracati e Camocim que se embarcavam os produtos da terra (carne de charque, algodão, cera de carnaúba e café) e por onde chegavam os demais víveres e os artigos de luxo dos barões e grandes comerciantes da época. A elite interiorana dotava cidades como Aracati, Camocim, Acaraú, Icó, Granja e Sobral de teatros, clubes e casarios opulentos, onde as famílias adotavam, em pleno sertão, o vestuário, a porcelana, a mobília e os modos da Europa.

Leia a reportagem completa da Jornalista Karoline Viana AQUI e AQUI.
Postado por Tadeu Nogueira às 07:20h.

Fonte: Camocim Online.

HISTÓRIA DO PORTO DE CAMOCIM

FOTO RARA MOSTRA O
LITORAL CAMOCINENSE EM 1930
Abrigo de ondas e correntes marinhas, o porto tem sido, ao longo dos séculos, a porta de entrada e saída de mercadorias, promovendo o desenvolvimento não só das cidades portuárias, como também das que serviam de entrepostos para o transporte da produção. No Ceará, do século XVIII até meados do século XX, Aracati e Camocim abrigavam os principais escoadouros da produção cearense. O declínio desses portos ocorreu com a centralização da atividade no Porto do Mucuripe, estabelecendo a primazia exportadora de Fortaleza.Antes disso, porém, era nos portos do Aracati e Camocim que se embarcavam os produtos da terra (carne de charque, algodão, cera de carnaúba e café) e por onde chegavam os demais víveres e os artigos de luxo dos barões e grandes comerciantes da época. A elite interiorana dotava cidades como Aracati, Camocim, Acaraú, Icó, Granja e Sobral de teatros, clubes e casarios opulentos, onde as famílias adotavam, em pleno sertão, o vestuário, a porcelana, a mobília e os modos da Europa.
Postado por Tadeu Nogueira às 07:20h

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

ABECEDARIUS CAMOCINENSIS

Este foi um nome que dei para um projeto meio ambicioso que venho fazendo aos pouquinhos sobre nossa cidade, nosso povo e cultura. No começo pretendia ser uma grande enciclopédia, ideia logo deixada de lado, por motivações óbvias. Aliás, o leitor, digo, o internauta, verá logo logo que ideias é o que não nos falta. E sonhos também. Depois, procurei nos textos da minha dissertação de mestrado e tese de doutorado (que logo estarão disponíeis no blog) a base para fazer um índice remissivo e então mudei o foco para um simples "abecedário", à modo de um dicionário, onde ao sabor das lembranças, vamos colocando os verbetes. Nesse sentido, espero a colaboração de todos para irmos construindo nossa "grande" enciclopédia. Tá combinado? Portanto, comecemos pela letra "A" e, como não seu besta, me permitam um "nepotisminho" de nada. Trata-se de dados biográficos do meu saudoso pai:





AUGUSTO DENTISTA (AUGUSTO PEREIRA DOS SANTOS).
Filho de Luís Miguel Pereira e Francisca Pereira dos Santos.Nasceu no município de Luís Correia – PI , na localidade de Baixa dos Caripinas, em 28/02/1944,
mas naturalizou-se em Camocim-CE, para onde se mudou em 1967, embora desde o início dos anos 1960, já exercesse o ofício de "tirar e botar dentes", no interior de Camocim. Exerceu ainda as profissões de agricultor, salineiro e portuário, contudo, a profissão que lhe projetou na comunidade camocinense foi a de protético, da qual ganhou a alcunha de "Augusto Dentista". Em 1992 entrou na política como vereador, exercendo a partir daí, três mandatos consecutivos pelo PSDB e PPS, até o ano de 2004. Na Câmara Municipal de Camocim foi Vice-Presidente de 1995-1996. Faleceu em 11/05/2006. Casado com Maria Pereira dos Santos, deixou esposa, oito filhos e seis netos.

A HISTÓRIA É DO CAMOCIM

Amigos e conterrâneos camocinenses. Há muito queria dispor de uma ferramenta como esta para a divulgação pura e simples da nossa história. Tenho tido, nesta empreitada, poucas portas abertas, muitas fechadas. Por isso, me decidi por conta e risco próprios, aventurar-me na condução de um blog que traga as pesquisas e as discussões sobre nossa história. Tenho me esforçado em publicar minhas pesquisas, mas não tenho guarida na minha terra e até na minha universidade. Nem tampouco recursos próprios para bancar edições de obras relativas à nossa história. Editar um blog pode ser uma saída. Só espero ter fôlego e tempo necessários para dar conta das demandas. Contudo, o sucesso deste blog dependerá muito dos amigos, estudantes e internautas que por acaso vierem a acessá-lo. Da minha parte, prometo trazer aspectos que possam de alguma maneira contribuir para a recuperação de nossa história e do desenvolvimento cultural de nosso município. Sempre tive isso em mente, desde que me decidi por esse caminho e profissão de historiador. Minhas pesquisas mais importantes foram e serão sobre Camocim. Tive a oportunidade de assessorar um projeto editorial para nossa cidade, aprovado pela edilidade e assinado pelo Executivo, mas, solenemente esvaziado em sua dotação orçamentária por razões não muito convincentes. Recentemente, recebi convite do amigo livreiro Francisco Olivar (Vavá) para participar de um projeto parecido, patrocinado pela Prefeitura Municipal. Já aceitei e já deixei minha contribuição com o revisor do projeto, Dr. Raimundo Cavalcante. Eu não tenho preferências partidárias quando o assunto é a cultura e o bem de nossa cidade. Sendo convidado, participo com a maior satisfação.
Para iniciar esse trabalho, apresento-lhes uma foto rara do Camocim de outrora, (que chegou às minhas mãos pelo estudante do Curso de História da UVA Paulo José) , provavelmente da década de 1940 a 1950, nos brindando com uma panorâmica da antiga Rua do Comércio, que já se chamou Virgílio de Melo Franco, político udenista, nossa atual Rua Dr. João Thomé, em homenagem a um dos engenheiros de nossa Estrada de Ferro de Sobral. O ângulo do fotógrafo é de quem estava recostado à balaustrada que orna a margem esquerda do Rio da Cruz (Coreaú, Camocim), tendo a Igreja Matriz de Bom Jesus dos Navegantes ao fundo, e no primeiro plano a Praça Vicente Aguiar, o casarão que foi da Família Sabóia, o Bar do Dedim Trévia e a firma comercial M. Aguiar, onde o Sr. Hindenburg Aguiar iniciou sua carreira comercial. Homens, mulheres e crianças passeiam pela Esplanada do Porto, esperando, quem sabe, parentes e amigos no trem das cinco horas da tarde. Vida longa ao blog e seja sujeito de sua própria história!