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quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

ORAÇÃO PARA CAMOCIM APARECER

 



Capa do Livro Oração para Desaparecer, da escritora cearense Socorro Acioli. Cia. das Letras, 2023.


         Acabei de ler "Oração para Desaparecer", da escritora cearense Socorro Acioli. Desde o premiadíssimo romance "A Cabeça do Santo" que Socorro Acioli já tinha dito a que veio na cena literária brasileira e internacional. Na mais recente Festa Literária Internacional de Paraty - FLIP 2023, "Oração para Desaparecer" e "Cabeça de Santo", foram o primeiro e o terceiro livros mais vendidos.
    No entanto, Socorro Acioli não az literatura para "vender" ou estar entre os mais "vendidos". Como ela mesmo já disse em suas entrevistas: 

"Se minha alegria depender de ganhar prêmio ou de estar na lista de mais vendidos, acabou. Não ia dar mais certo, ia ser uma porcaria. E, infelizmente, a gente vê isso acontecendo com alguns trabalhos e artistas”.
    
    Ao escrever para a sua felicidade, pelo puro prazer de escrever, Socorro Acioli também faz a alegria de muita gente como eu e, acredito, de muitos camocinenses, por se identificar com sua escrita, de ver as tradições e os costumes do povo tremembé no enredo de suas histórias, de suas lendas pulsando em cometimentos poéticos e literários.
    Deste modo, desde o cavalo marinho estampado na capa e nas breves resenhas que acompanharam a divulgação da obra "Oração para Desaparecer" que eu intuíra que algo de Camocim estaria naquela história. Não deu outra. A ocorrência do cavalo marinho (Hippocampus reidi  em nosso litoral, o soterramento da vila de Tatajuba, a Ilha do Amor, o rio Coreaú estão no livro para dar sentido ao enredo principal da obra.
    Eu que vivo procurando Camocim nos manuais de História do Brasil, encontrei na melhor literatura publicada hoje no país, pelas mãos de Socorro Acioli. Eu até já mandei prá ela as notícias dos roubos do Menino Jesus dos presépios daqui. Uma grande presepada!!!

Fonte:https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/verso/oracao-para-desaparecer-novo-livro-de-socorro-acioli-e-carta-de-amor-a-almofala-ceara-e-portugal-1.3453544.
 
  

segunda-feira, 13 de março de 2023

OS CURRAIS DE PESCA DE CAMOCIM DO SÉCULO XVIII

 


Montagem de curral no mar.
Fonte: https://www.jornaldaparnaiba.com/2014/01/o-lugar-distrito-de-barroquinha-revela.html



    Camocim é uma cidade construída a beira-mar e tem na pesca um dos seus sustentáculos econômico. Já tivemos alguns ciclos nesta atividade onde o município respirou pujança na pesca da lagosta e do pargo. Hoje, ainda exportamos pescado para todo o território nacional e a pesca artesanal é de suma importância para o abastecimento do mercado local.
    No entanto, se falarmos da "pesca de curral", uma técnica usada para prender os peixes numa espécie de armadilha durante a maré alta e depois despescada pelos "vaqueiros"-pescadores, quase ninguém irá relacionar com o cotidiano dos pescadores camocinenses, mas, imediatamente, aos bravos homens do mar da praia de Bitupitá, distrito de Barroquinha-CE.
    Por outro lado, a história da exploração desse tipo de atividade no mar, é muito mais antiga do que pensamos. A pesca de curral, a partir dos documentos que ora trazemos nesta postagem, mostram que essa era uma prática utilizada há pelo menos desde a segunda metade do século XVIII. Do ponto de vista dos registros históricos sobre Camocim é anterior a chegada da Família Gabriel para iniciar a exploração do porto em 1792 e da nossa condição de distrito do município de Granja, por exemplo.
    Pelos nomes das pessoas que pedem autorização a Câmara Municipal de Sobral, (antes da elevação do município de Granja, o nosso território pertencia a Sobral), para erguer "currais de pesca", supõe-se  que eram homens brancos e moravam em nossa praia e estavam em contato com os nativos nesta época, visto que os segredos, entrâncias e reentrâncias do nosso rio, segundo a tradição oral, foi ensinada a Gabriel Rodrigues da Rocha (o patriarca da Família Gabriel) por um "velho Tremembé".
    Deste modo, o Livro de Registro de Licenças da Câmara Municipal de Sobral, do ano de 1775, indica as petições e as autorizações do Presidente da Câmara, para o funcionamento dos currais de pesca na praia de Camocim por seis meses, naquele ano, com um custo de seis contos e quarenta réis. Como se vê, era uma atividade cara e talvez por isso, apenas dois moradores, o Alferes Francisco Carneiro da Cunha e Manoel Rodrigues Peixoto solicitaram tais empreendimentos, conforme as transcrições abaixo:






      Como podemos observar, a cada fonte revelada, a cada conhecimento adquirido, a história vai se completando e se 
transformando e se tornando mais plural.


Fonte: Livro de Registro de Licenças da Câmara Municipal de Sobral. 1774. Acervo do Núcleo de Estudos e Documentação Histórica (NEDHIS). UVA/Curso de História. Sobral-CE. 


sexta-feira, 19 de abril de 2019

TODO DIA É DE ÍNDIO.

Índios Tremembés. 2014. Foto: Felipe Abud. Fonte: Facebook. Sec. Cultura do Estado do Ceará.


Dia de índio deveria ser todos os dias. Todos os dias, todas as luas, toda a terra que veio a se constituir um dia a nação brasileira já foram deles. Hoje, reduziu-se a um dia para dizer que eles existem. Eles que já foram guindados a símbolo da nacionalidade lá no nascimento da nação sob o jugo imperial, hoje, para eles o presidente e o ministro convocam a "Força Nacional" para ficar de prontidão, caso eles empunhem suas flechas contra o concreto de Niemeyer moldado por mãos caboclas na mistura candanga que ergueu Brasília. 
Seus territórios, com todas as suas significações e sentidos, antes tudo, hoje, espaços demarcados, outros em luta para ter seu reconhecimento legalizado, estão em vias de sofrer fortes reveses pela política devastadora do governo atual.
Embora que as pesquisas sobre os índios no Ceará ainda sejam poucas, as mesmas revelam a forte presença deles em nossa região, se aliando e resistindo à colonização europeia e suas táticas de tornar invisível sua presença no território, sejam pelos massacres da "guerra justa", ou pela força do decreto provincial de 1861.
Na próxima postagem, falaremos do índio AMANAY que foi símbolo desse modo de resistir ao homem branco, que com sua descendência, oriundos da capitania do Rio Grande, habitaram as praias do Rio Camocim entre os séculos XVI e XVII e se espalharam pelas terras da capitania do Siará Grande.



terça-feira, 13 de novembro de 2012

SERIE MAPAS - OS INDIOS DA IBIAPABA A CAMOCIM

Planta Topográfica da Serra de Ibiapaba. Sede da Grande Nação Tabajara.
O desenho ao lado é uma planta topográfica em forma de mapa que, além das indicações pŕoprias, traz muitas informações em rodapé sobre a nação indígena Tabajara e a descendência de Felipe Camarão, herói na guerra de expulsão dos holandeses de Pernambuco. O documento é de 1897, portanto, já do século XIX, mas, reporta-se ao século XVII e XVIII em suas indicações. Feito pelo desenhista Pedro Ciarlini, e oferecido ao Instituto Histórico do Ceará pelo Coronel Lamartine Nogueira, o mesmo foi publicado pela Revista do Instituto. Além de mostrar os caminhos e os acidentes geográficos, relaciona os principais aldeamentos de índios na região. Destaque-se para o entendimento da nossa região, o aldeamento feito na Fazenda Missão fundado pelo Padre Ascenso Gago em 1694, às margens do Rio Curuayhú (Rio Coreaú), próximo da cidade de Granja. A partir de Granja o mesmo rio, segundo o desenhista, recebe o nome de Rio Camocim, onde é localizado o núcleo da nossa atual cidade e, que naqueles tempos era habitado pelo tabajara, Chefe Ticuna, parente de Felipe Camarão. Ticuna, portanto, por conta das guerras tribais ou dos deslocamentos migratórios da época, pode ter sido um chefe tabajara que habitou com sua tribo o território camocinense, furando a dominação da nação Tremembé, que se espalhava na extensa faixa litorânea dos rios  Mundaú ao Parnaíba.

P.S. Agradeço a cessão do mapa ao Prof. Raimundo Nonato Rodrigues de Sousa do Curso de História da UVA.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

SC 18 - OS INDIOS DE CAMOCIM


Os primeiros registros da região do Camocim, seja na análise dos historiadores ou na documentação administrativa quase sempre estão ligados à presença de indígenas e as tentativas de estabelecimentos de colonos e os respectivos confrontos. Por outro lado, a presença de estrangeiros na exploração dos recursos naturais e sua relação com os nativos é outro aspecto a ser ressaltado. É essa presença estrangeira, inclusive, que forçaria que a atenção dos colonizadores se voltasse para a região.
Portanto, é a partir da segunda metade do século XVII que a região de Camocim passa a ter alguma visibilidade, seja como lugar de descanso de reabastecimento de tropas rumo à Ibiapaba, de expedições exploratórias holandesas,  ou de realocamento de grupos indígenas fugidos de outras refregas na capitania.
Neste sentido, dentro do contexto da Guerra da Restauração que tinha como objetivo expulsar os holandeses da Capitania de Pernambuco, a região aparece na crônica da guerra, como assinala o historiador Ronaldo Vainfas:
Outro chefe notável do chamado “partido holandês”, entre os potiguaras, foi Antônio Paraopaba, guerreiro afamado, responsável por várias vitórias holandesas na fase do domínio holandês contra os restauradores de 1645. Foi um dos chefes dos massacres perpetrados pelos holandeses em Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande, em 1645, respectivamente em julho e outubro, e comandante da retirada dos índios para a Serra da Ibiapaba, no Ceará, depois da derrota holandesa de 1654. 1

Sobre a estratégia dos holandeses de se aliarem aos índios para lutarem contra os portugueses, os mesmos os também usaram deste expediente na luta contras os franceses, na conquista da Capitania do Ceará. José Cordeiro, em  Os Índios no Siará. Massacre e resistência. Fortaleza, ed., 1989, assinala alguns nomes de maiorais indígenas da região:

Amaniú (Algodão) – Cacique potiguara. Ofereceu e deu ajuda aos holandeses, auxiliando-os com duzentos índios na tomada do forte do Ceará. Em 1637 André Vidal de Negreiros recebeu ordens do Reino para afugentá-lo. O cacique deixou sua aldeia às margens do Rio Ceará e foi se estabelecer no Camocim. Deram-lhe o nome de Domingos Ticuna. Ainda em 1656 o Rei recomendava a Vidal de Negreiros nova ação contra este maioral”.
(p.205)
Cobra Azul – Índio tabajara, do Ceará. Era filho de Amaniú. Rebelou-se contra o padre Luís Figueira e acabou migrando para o Maranhão. (Século XVII).
(p.208)
Tatupeba (Tatu Chato) – Cacique de Camocim, Ceará.

1 VAINFAS, Ronaldo. Traição.  
Foto: diariodonordeste.globo.com


terça-feira, 19 de abril de 2011

OS TREMEMBÉS DE CAMOCIM - SÉRIE MAPAS

O mapa de hoje traz o nosso rio grafado como Rio da Crúz, mas, também faz uma referência aos Tremembés, índios que habitaram essa região denominada, como já vimos, Costa Leste-Oeste. Os índios, como se sabe, foram sendo dizimados após o contato com os brancos a ponto de hoje sua existência ser lembrada com uma data - 19 de abril. Mas voltando à nossa história, é senso comum se dizer que essa região litorânea experimentou um intenso comércio com os primeiros aventureiros e exploradores estrangeiros, sendo Camocim uma zona de passagem para o Maranhão, onde esse comércio era mais efetivo, afora os relatos de guerra entre as tribos nativas, com os colonizadores e ondas de migração indígena advindas da guerra da restauração pernambucana. Vejamos o que nos diz importante estudo sobre a região:

"Nunes (1975, p.43) chama atenção para o comércio “clandestino” de Camocim a Tutóia, tendo o Parnaíba como centro e os indígenas do litoral como “principais promotores”, “[...] associados a índios do interior”. Além de madeira de melhor qualidade, havia também como atrativo para o resgate efetuado entre piratas e indígenas, o âmbar-gris, que era bastante comum e facilmente encontrado nas praias do litoral setentrional e que, conforme Gandavo (1980) afirmava na segunda metade do século XVI, enriquecia muitas pessoas com sua coleta. Madeira, âmbar-gris, macacos, papagaios, pimenta, algodão: Eis alguns dos primeiros produtos comercializados pelos indígenas que viviam na Costa Leste-Oeste, já nos séculos XVI e XVII. Não eram o ouro do Caribe, nem a prata do Peru, nem as especiarias das Índias, mas para piratas que não tinham como enfrentar os monopólios comerciais de portugueses e espanhóis, pelo menos nos primeiros cinqüenta anos do século XVI, eram importantes fontes de capitalização, inclusive para os cofres reais que, por vezes, autorizavam as investidas dos entrelopos. Diante de tudo o que foi exposto, é possível inferir uma continuidade espacial há cerca de quatrocentos anos, entre as terras que ficam hoje localizadas entre os atuais municípios de Camocim (Ceará) e Luís Correia (Piauí), não só em relação à proximidade e características ecológicas, mas também no tocante às referências históricas."

Mapa 4. “Província dos Taramembez de Guerra” (ALBERNAZ, [ca 1629])
Fonte: Capítulo 3 .Histórias do Pescador, dos Cacos e dos Antigos Cronistas. In:www.ufpi.gov.br