sábado, 20 de fevereiro de 2021

NOSSOS LUGARES ANTIGOS. SÃO BRÁS.

Entrada antiga do São Brás, atualmente Rua Primeiro de Maio. Fonte: Google Maps. 

Meados da década de 1970,  num tempo em que o lado oeste da cidade era limitado pela "Carroçal" que era a estrada Camocim-Granja, hoje Rua Antonio Zeferino Veras, que já foi 03 de Outubro, havia uma grande faixa de mata fechada, que vinha desde a Rua Perimetral até o Campo da Aviação, singrada de pequenos caminhos que então chamávamos de "veredas".

A faixa de terra, que até outro dia pontificava o então Hospital São Francisco, era chamada de São Brás. Da "Carroçal" iniciava-se uma vereda que dava num córrego. que na sua extensão ia dar no Lago Seco. Toda essa área era usada como pasto para animais de pequenos criadores, como o meu pai, dono de uma única vaca, comprada com o objetivo de suprir a carência de leite da sua prole.

Eu era o vaqueiro da nossa fonte de leite "mugido" e coalhada. servida à tardinha com açúcar e farinha. Todo dia eu tinha essa missão de, após a ordenha, conduzir a vaca até a mata do São Brás, com a recomendação de não sair do trajeto - rua General Tibúrcio, passando pela Baiúca, hoje trecho da rua João Pessoa, atravessar a "carroçal" e adentrar na mata, sem jamais se aproximar de uma casa em meio à mata que diziam ser de um macumbeiro local.

Todas estas recordações me vieram à mente ontem, quando atravessei toda essa faixa de terra. loteada e sendo urbanizada com residências, oficinas e até academia.

Em tempo: São Brás nasceu na Armênia e antes de se consagrar na vida religiosa, foi um médico muito requisitado. "São Brás foi preso e sofreu muitas chantagens para que renunciasse à fé. Mas, por amor a Cristo e pela Igreja preferiu renunciar à própria vida. Em 316 foi degolado".

Coincidência ou não, O lugar chamado São Brás, que era médico, foi palco de um sonho de outro médico, Dr. Wilson que denominou seu hospital com o nome do santo de sua devoção: São Francisco, hoje, infelizmente, em ruínas.

Fonte: https://santo.cancaonova.com/santo/sao-bras-medico-e-pastor-das-almas/

domingo, 17 de janeiro de 2021

ESTRADA DE FERRO DE SOBRAL. 140 ANOS DO TRECHO CAMOCIM-GRANJA

 

Mapa da Estrada de Ferro de Sobral. Fonte: Bcm 012.


Anteontem, 15 de janeiro de 2021, a cronologia marcou os 140 anos do início da operação da Estrada de Ferro de Sobral (EFS), iniciado com a inauguração do trecho Camocim-Granja em 15 de janeiro de 1881, com a extensão de 24,5 km de trilhos e as duas respectivas estações. Deste dia até o fatídico 24 de agosto de 1977, quando o Sr. Raimundo Nonato de Castro (Bolô), tendo como auxiliar o Sr. Aragão, conduziu o último trem partindo para Sobral, foi quase um século de existência (96 anos, para ser mais exato) de serviços prestados pela ferrovia à população da então zona norte do Ceará.
Por conta da efeméride redonda, há muito me fiz um desafio que pretendo concluir ainda neste ano - uma obra que conte a história da Estrada de Ferro de Sobral sob a perspectiva da História Social. Para isso, venho ao longo do tempo orientando alunos nesta temática, explorando a documentação sobre os diversos lugres por onde a ferrovia passou, recolhendo testemunhos de ex-ferroviários, de pessoas que viveram e viram esta época do trem que marcava o cotidiano das pessoas com suas chegadas e partidas.
Aqui mesmo, neste blog, ou em publicações anteriores como "A Nostalgia dos Apitos", que publicamos em 2017 e que marcou os 40 anos de desativação do ramal ferroviário Sobral-Camocim, já venho realizando este trabalho.
Buscando ampliar este esforço, atualmente oriento um projeto de iniciação científica na UVA denominado: "A História não perdeu o trem. História Social da Estrada de Ferro de Sobral", para dar conta deste desafio maior, que é parar em todas as estações e buscar contar um pouco da história destes lugares que o mapa acima demarca a partir da presença da EFS. Esperamos que este trem não atrase!

Fonte: 

OLIVEIRA, André Frota de. Estrada de Ferro de Sobral.. Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 1994.

SANTOS, Carlos Augusto P. dos. A Nostalgia dos Apitos. Sobral: Edições UVA, 2017.
                                                                                                 

sábado, 19 de dezembro de 2020

O PARLAMENTO CAMOCINENSE

 

Capa do livro "O Parlamento Camocinense". 2020. Camocim-CE.


Acaba de ser editado pela Editora Sertão Cult, com patrocínio da Câmara Municipal de Camocim o livro "O Parlamento Camocinense. Fatos históricos. 1879-2019", de nossa autoria. A referida obra é resultado de nosso trabalho junto ao Memorial do Legislativo Camocinense, que tem por objetivo a preservação e publicação da história do poder legislativo e do município.
Além de se referir aos primeiros documentos da Câmara Municipal e da transição política do Império para a República e sua repercussão em Camocim, o livro traz ainda uma seleção de fatos do cotidiano de nosso município que foram discutidos e registrados nas atas das sessões do legislativo camocinense, como projetos dos vereadores e dos prefeito(a)s, reivindicações da sociedade organizada, disputas políticas, cassações de prefeitos, dentre outros assuntos.
Finalizando, a obra traz também as atas de posses dos presidentes da Câmara Municipal e dos prefeitos de Camocim e uma relação dos títulos de cidadãos camocinenses ao longo do tempo.
A obra se configura mais como um registro das ações do legislativo camocinense, dando publicidade a seus atos, do que propriamente uma análise da história política do município. É um livro para o leitor ler e tirar suas próprias conclusões.
Agradecemos o apoio do atual presidente da Câmara Municipal de Camocim, vereador César Veras, pela publicação do livro, que brevemente será distribuído entre as escolas, bibliotecas e entidades camocinenenses, e disponibilizado eletronicamente no site da entidade.

Ficha Técnica:

Título: O Parlamento Camocinense. Fatos Históricos. 1879-2019.
Autor: Carlos Augusto Pereira dos Santos.
Ano: 2020.
Editora: Sertão Cult. 
Local: Sobral-CE.
Nº de páginas: 320.
Dimensões: 15cm x 22cm.
Tiragem: 300 exemplares.


quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O DIA DO SAMBA É CRIAÇÃO DE UM CAMOCINENSE

ANÉSIO FROTA AGUIAR. Fonte: CEDIM.

Em tempo de pandemia, a data passou quase despercebida. Até o carnaval já foi adiado. Mas,  como expressão musical, o SAMBA também tem seu dia, 02 de dezembro. No entanto, poucos sabem que a efeméride está intimamente ligada a um camocinense. Pois é, trata-se de Anésio Frota Aguiar, já referido em outras postagens neste blog como político.
E como deputado estadual, ele foi autor da Lei nº 681, em 19 de novembro de 1962, "que redundaria, em 28 de julho de 1964, a Lei nº 554 que criou definitivo o "DIA DO SAMBA" e fixou em 02 de dezembro, coincidindo com a data em que foi encerrado o I CONGRESSO NACIONAL DO SAMBA". (p.17).
Segundo o autor da lei, no livreto de sua autoria intitulado "O Samba e sua História" (1991. Editora Cátedra, p. 18), nos diz:

"Deputado na época e acompanhando de perto o acontecimento, senti a imperiosa necessidade de fixá-lo na memória dos pósteros, impedindo que tão importante evento viesse a se desvanecer na poeira do tempo. Daí a minha iniciativa de criar O DIA DO SAMBA".
Para termos uma ideia da grandiosidade deste evento ocorrido no Rio de Janeiro, estavam presentes "figuras exponenciais do movimento artístico e musical da época, tais como Almitante, Ari Barroso, Pascoal Carlos Magno, maestro José Siqueira, Paulo Tapajós, Haroldo Costa, Sérgio Cabral, Donga, Araci de Almeida, e muitas outras personalidades de nossa cultura popular". (p.18).

A data de 02 de dezembro foi escolhida por marcar legalmente, naquela época, o começo dos ensaios das "referidas escolas, visando o carnaval do ano seguinte". (Almanaque do Samba).

O projeto aprovado na Assembleia do Estado da Guanabara foi vetado pelo governador Carlos Lacerda, mas se tornou lei com a derrubada do veto pelos deputados guanabarenses.

Fonte: baraulhodeagua.com



Com  o tempo a data foi se consolidando como Dia Nacional do Samba.

Fonte: AGUIAR, Frota. O Sambra e sua história. Rio de Janeiro, 1991. Editora Cátedra.

www.almanaquedosamba.com.br/perfil-de-a-z/destaques/item/999-a-origem-do-dia-nacional-do-samba

barulhodeagua.com



 

terça-feira, 3 de novembro de 2020

DONA FOSCA E PAULA HÉLVIA - PROFESSORAS DO CAMOCIM


                            Escola Brown Boveri, 1963, São Paulo. Fotografia de Hans Gunter Flieg / Acervo Instituto Moreira Salles.

As memórias são excelentes fontes para a história. No mínimo são rastros que podem nos levar a interessantes caminhos para a história de uma cidade. 
É o que acabo de ler no livro "O mundo que eu vi.blog" do granjense Agenor Bevilaqua, editado por ele em 2008. Em suas reminiscências, traz um pouco de sua vida de estudante em Camocim, nas crônicas "Dona Fosca" e "Anos de Mudança". Em ambos os escritos, o autor confessa sua paixão de "jovenzinho sempre propenso a se apaixonar por sua professora" (p.77).
Para o historiador, fica a "deixa" para investigar um pouco mais sobre estas professoras que atuaram na cidade entre as décadas de 1930 a 1940.
Por enquanto, fiquemos com as lembranças de Agenor sobre "Dona Fosca" e Paula Hélvia Camargo Lima. Ele dedica um espaço maior para Dona Fosca Casarotti Farias, descendente de italiana, "paulista de Santo André" que, na Revolução de 1930, apaixonou-se por um soldado, "natural de Camocim, Hermenegildo Farias, apelidado de Manin, pobre e 9 anos mais velho que ela. Soube que Dona Fosca era filha de pais abastados no ABC paulista e que deixara sua família e sua terra para acompanhá-lo"(p.40).
Resta saber o que um camocinense estava fazendo em São Paulo para se tornar soldado da Revolução de 1930 e como encontrou uma paulista com ascendência italiana.
Mais de 40 anos depois, Agenor tenta localizar a antiga professora e acabou achando seu esposo que lhe deu a informação: "que minha musa falecera, vítima de tifo no dia 02 de abril de 1933, na cidade de Massapê. Ela estava acompanhando o marido em suas andanças a trabalho" (p.41).
Com relação à Paula Hélvia, Agenor a descreve como "não tendo a beleza de Fosca, mas era amável e para mim adorável, como fora a outra" Numa viagem que fizera a Camocim em 1938, para tratamento de saúde, reviu a professora e lhe deu um livro de presente, que o mesmo não lembra "se foi 'O Bobo' ou 'Eurico, o Presbítero'" de Alexandre Herculano.(p.77).
Com suas recordações, Agenor Bevilaqua acabou colocando na histórias mais duas mestras na história da educação de Camocim.

Fonte: BEVILAQUA, Agenor. O mundo que eu vi.blog.  São Paulo, 2008. Fonte: http//omundoqueeuvi.blog.com.


quinta-feira, 15 de outubro de 2020

O BACHARELISMO E A POLÍTICA EM CAMOCIM.

 

Símbolo do Direito. Fonte: https://br.pinterest.com/pin/380554237247529107/


                “É preciso lembrar que a maior parte dos políticos que galgaram posições políticas de comando na estrutura do poder do Estado, tiveram formação jurídica; todavia, é igualmente verdade que a maior parte dos bacharéis formados, preparados para integrar os quadros burocráticos estatais, foi atuar nas delegacias de polícia, nos gabinetes executivos setoriais – provinciais e municipais -, nas promotorias e varas judiciais locais, na vereança”.  (ADORNO, 2019, p.181).

                O trecho acima se refere a uma conjuntura do século XIX no Brasil. Contudo, semelhanças e diferenças se fazem presente no nosso cenário político, embora, este fenômeno se dê em menor grau e, só agora, possa ser melhor percebido.

Outrossim, se fizermos uma breve pesquisa, veremos que o posto maior da república brasileira - o de Presidente da República-, veremos que em sua grande maioria foi ocupado por advogados em toda sua história. Hoje, mais do que uma profissão que parece ser rentável (em Camocim, praticamente em cada esquina do centro comercial encontramos escritórios de advocacia, com mais de um causídico com seus nomes e “Drs” estampados, afora aqueles que advogam em casa ou não possuem ainda a carteira da OAB), os operadores do Direito flertam constantemente com o desejo do bacharel em se tornar um político, direito, aliás, de qualquer cidadão em pleno gozo dos seus.

                Fazendo estas relações, vê-se que em Camocim, vereadores, que depois que exerceram seus mandato,s fizeram o Curso de Direito, como José Genésio Vasconcelos (hoje procurador jurídico da Câmara Municipal de Camocim), José Ferreira Lopes (Zé Paraíba), e Sérgio de Araújo Lima Aguiar (Deputado Estadual). Atualmente, com o título de Bacharel em Direito exercendo mandado de vereador temos Marcos Antônio Silva Veras Coelho, além de Antônio Emanoel de Almeida Sousa e José Jeová Vasconcelos, graduandos na mesma área.

 

                Dos atuais candidatos ao pleito de 2020 e que se declararam serem advogados ou estando cursando Direito junto ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE), Mário Roberto Ferreira Lima, Ivanaldo Coutinho do Nascimento, Rosivan Nascimento e Maria Eduarda de Oliveira Pereira, tentam chegar pela primeira vez ao cargo de vereador.

No plano do Poder Executivo, a relação política e formação jurídica também se verifica. A atual prefeita de Camocim, Mônica Gomes Aguiar, é bacharel. Maria Elizabete Magalhães (Profa. Betinha), uma das candidatas à Prefeito de Camocim em 2020, há pouco mais de um mês, graduou-se em Direito.


FONTE: ADORNO, SÉRGIO. Os Aprendizes do Poder. São Paulo: EDUSP, 2019, p.181.


terça-feira, 29 de setembro de 2020

CAMOCIM 141 ANOS (X SETEMBRO CAMOCIM. 2020. Nº 7).

 


Praia  do Pantanal. Camocim. 2019. Foto: Carlos Augusto P. Santos.

Ressaltar as belezas, a história e a cultura do nosso povo no dia hoje é quase pleonasmo. Como historiador,  busco sempre aquilo que pouco sabemos, para lembrar daquilo que quase todos esquecemos. Daí a tarefa dupla do pesquisador de história: recuperar o que está meio obscuro e não deixar cair no esquecimento nossas referências identitárias.

Neste sentido, mais importante do que saber o que significa a palavra CAMOCIM, é compreender como se deu o povoamento de nosso território pelos vários povos nativos e como aqui chegou o negro escravizado. Mais do que  saber quais foram as primeiras famílias a se instalarem no município e  como fincaram suas bases de poder, é entender como seu deu a dinâmica desse poder através dos tempos.

Historiograficamente falando temos um grande caminho a percorrer. O porto e a ferrovia  não bastam para explicar o  que foi Camocim no final do século XIX e primeiras décadas  do século XX, quando despontávamos como um dos municípios mais prósperos do Ceará. A "Cidade Vermelha"  da militância comunista não contempla o seu oposto - a atuação dos integralistas e  os movimentos de direita que existiram por aqui. Pinto Martins é um ícone que não ofusca os milhares de atores comuns que deixaram suas marcas na história que precisam ser recuperadas, para que a história fique mais próximas de nós!

De qualquer  modo, a data de hoje serve para que voltemos mais nossas atenções para a história do município, entendendo a importância que cada habitante tem para a construção permanente e atualizada da identidade de ser camocinense. Parabéns CAMOCIM. 


sábado, 26 de setembro de 2020

CAMOCIM DE ALMANAQUE (X SETEMBRO CAMOCIM 2020. Nº06).

Balaustrada de Camocim. 2020. Autor: Nagib Melo.



Já disse mais de uma vez neste espaço que os almanaques são importantes fontes para a história. Como uma fotografia, revelam o instante do objeto focalizado. Assim como os calendários, eram esperados ao fim de cada ano, trazendo as atualizações dos lugares, os números e as mudanças administrativas.

Voltemos o olhar para o distante ano de 1911, quando Camocim comemorava apenas o 32º aniversário de emancipação política. Neste ano, nem sequer éramos uma comarca, pois pertencíamos à de Granja, e os nossos distritos eram Barroquinha, Almas (Bitupitá) e Gurihú (ainda escrito com "h").

No entanto, em 1911, a Câmara Municipal já tinha publicado o seu Código de Posturas (1908) com 245 artigos, o segundo desta natureza, já que o primeiro fora aprovado em 1886. Ainda no ano de 1908 a Câmara fez publicar um Memorial Histórico da Cidade organizado por Antonio Philadelpho Pessôa, em comemoração ao Primeiro Centenário da Abertura dos Portos do Brasil ao comércio internacional. Este trabalho é o primeiro esforço de escrita de história do município (título raríssimo!) feito especialmente para representar Camocim na Exposição Nacional daquele ano.

Em 1911 o Porto de Camocim era considerado o melhor do estado,  tendo 02 armazéns e cinco pontes (trapiches), um farol e bóias que iluminavam a barra, uma pequena casa para observações mareográficas e um galpão que servia como posto fiscal da Recebedoria do Estado. 
A Empresa de Navegação L. Lorentzen, de origem norueguesa, atuava em  Camocim nessa época, mantendo regularmente com os vapores Rio, Ipu, Sobral Camocim as seguintes linhas: de Pernambuco a Manaus e de Camocim ao Pará.

Na Praça  da Matriz estavam em construção em 1911, dois poços artesianos. A população era de 6.000 habitantes e os eleitores somavam apenas 544 eleitores (1909).



FONTE: Almanaque Laemmert, 1911, ed.68, p.392.