O Blog:

Amigos e conterrâneos camocinenses, a gente só dar o que tem. Quando pensamos editar um blog, este foi o pensamento: doar todo nosso esforço na construção de uma ferramenta como esta para a divulgação pura e simples da nossa história. Contudo, essa é uma oportunidade de todos participarem desta empreitada, seja comentando, sugerindo, corrigindo e, efetivamente, participando dessa grande viagem que a História nos proporciona. Que nosso "POTE" nunca encha e sacie a todos!!!

sábado, 25 de junho de 2011

CAMOCIM, ENAMORADA DO MAR - PARTE 1


PROSSEGUINDO COM A SESSÃO "ESCRITORES DE CAMOCIM", HOJE TRAZEMOS À TONA O TEXTO DE FROTA AGUIAR. PRÓXIMO DOMINGO TRAREMOS A SEGUNDA PARTE. CHAMO A ATENÇÃO PARA OS ASPECTOS HISTÓRICOS QUE O TEXTO TRAZ. ESPERO QUE GOSTEM!

"
Camocim, onde o rio Coreaú, vindo do lado das Cordilheiras da Ibiapaba, deságua, formando o porto do mesmo nome, é o meu berço. Aí, nasci em 7 de agosto de 1901. A Massapê, que asistiu minha infância e minha juventude, faixa etária sublime, cheia de sonhos e ilusões, sou grato. De ambas - a que é beijada por refrescante brisa do mar, e a que é banhada por raios fortes solares do sertão, delas me orgulho, visto terem me inspirado na satisfação de meus ideais e nas modestas, mas significativas, vitórias de minhas lutas. Após ter deixado minha gleba natal, em tenra idade, ainda ávido do calor dos braços maternais, a ele retornei, em 1915, numa calamitosa seca, como escala, rumo ao Sul do país, de futuras pelejas.
O convívio com o então jovem Campoamor Aguiar Rocha, que no futuro viria a ser meu cunhado, mais os conselhos sábios de Moisés Cavalcante e Vicente de Paula Aguiar, muito me ajudaram a aprimorar os conhecimentos das coisas e das pessoas, integrando-me à vida camocinense, invadida, na época, por levas de flagelados da seca à procura de trabalho e de saída par outras regiões do país!
Mesmo por curto tempo, em que permaneci na terra que guardava carinhosamente minúscula partícula do meu ser - o cordão umbilical, consegui trazer à memória revelações que minha saudosa mãe - Rosa - me transmitiu. Assim, voltei às origens, em tempo, embora ausência tão longa, não para me penintenciar, mas para amá-la cada vez mais.
Lembro-me, como se fosse hoje, das famílias Veras, Coelho, Cavalcante Rocha, Aguiar Rocha, Menescal Carneiro, Ramos, Cavalcante, Chaves, Vasconcelos, Praxedes, Menezes, Pessoa, Morel, Cela, Trévia, Fontenele, Barros e Gomes Lima. Talvez haja omissão. Culpem-me a memória.
O conceito das firmas Nicolau Carneiro, casa bancária e de importação e exportação, e Albuquerque & Cia., sita à Praça da Estação, era inconteste com repercussão no norte do Estado.
O movimento do porto, por certo devido à crise climatérica - aimplacável seca, era intenso. E triste, quando se observava levas de
retirantes em conveses e porões de navios, como se animais irracionais fossem. Fui um deles!
O pároco da cidade, Padre José Augusto, sacerdote social e culto, autêntico evangelizador de almas, se hoje existisse, estaria estarrecido da postura de certos religiosos que tudo querem resolver sob a 'análise marxista', aceitando, portanto, o materialismo histórico que conduz ao ateísmo.
Recordo seus intelectuais, homens de imprensa: Júlio Monteiro, Francisco Menescal Carneiro, Raul Rocha e Américo Pinto, este inveterado "boêmio".
Menescal Carneiro, o popularíssimo
Sotero, meu primo, era forte e alto, voz de comando, e comunicativo"

Fonte:AGUIAR, Frota. O Último Canto do Cisne!... Editora Cátedra. Rio de Janeiro, 1993, p.22-3.
Foto: aprece.org.br

quinta-feira, 23 de junho de 2011

A PROCISSÃO DE SÃO PEDRO - POR CARLOS CARDEAL


INAUGURANDO A SEÇÃO "ESCRITORES DE CAMOCIM" E, APROVEITANDO QUE ESTAMOS NOS FESTEJOS RELIGIOSOS EM HOMENAGEM À SÃO PEDRO, O BLOG HOMENAGEIA NOSSO ESCRITOR IMORTAL CARLOS CARDEAL DE ARAÚJO, E SUA OBRA "Terra e Mar".


A procissão de São Pedro começa por terra e termina por terra, mas a grande parte do seu percurso é feito por água. No Rio da Cruz, os mais diversos tipos de embarcações cruzam-se cortando as águas. Enfeitadas com flores silvestres, papel colorido e folhas de coqueiros, elas mais parecem jarros gigantes boiando sobre as águas. Duas da tarde, sob o sol ardente o cortejo sai da igreja de São Pedro. Grande fila de carros segue o andor instalado provisoriamente sobre a capota de um deles. (...) Após a rápida passagem do cortejo, a multidão segue para a praia dos Coqueiros. Lá, grande é a concorrência dos mais afoitos por um lugar nas embarcações. [1]


Aí eu completo: quem não consegue um lugar nos barcos ou prefere caminhar segue a procissão por terra junto à balaustrada, acompanhando o santo acomodado em uma das embarcações. Ressalve-se a grande quantidade de fogos de artifícios explodida durante ocortejo. Terminado o percurso marítimo, a imagem do padroeiro segue para um palanque armado defronte a Colônia dos Pescadores onde é rezada a missa final. O dia 29 de junho é feriado municipal, independente do dia da semana em que venha recair.

[1] ARAÚJO, Carlos Cardeal de. O Terra e Mar. Fortaleza-CE: Fundação Dolores Lustosa,1988, p.93.

Fotos: Camocim Online.

AS LOCOMOTIVAS DOS TRENS DE CAMOCIM

A sabedoria popular é muito encantadora. Traduz, muitas vezes, o incompreensível e o distante em algo inteligível, num poder de síntese de fazer inveja a muitos ensaios acadêmicos. Quando nossa região teve seu grande salto para o progresso com a construção da Estrada de Ferro de Sobral, as velhas Marias Fumaças (naquela época não tão velhas e já com com uma conotação popular dos maquinismos adquiridos diretamente da Filadélfia, Estados Unidos), eram sinônimos de novidade, velocidade e espanto que povoava o imaginário do povo da região. As locomotivas que passaram a circular rotineiramente pelo caminho de ferro eram três e tinham os nomes de "Sinimbu, Viriato de Medeiros e Rocha dias, "em homenagem respectivamente às pessoas do nobre Presidente do Conselho de Ministros, do ilustre representante do Ceará no Senado e o primeiro diretor da Estrada de Ferro de Sobral". Uma música popular de autoria desconhecida trazia o sentimento dos nossos antepasados diante dos "monstros de ferro". O blog "Camocim Pote de Histórias" recupera essa preciosidade para todos os internautas, certamente conhecida entre nossos antigos e bravos ex-ferroviários:

Tem a Estrada de Sobral

Três máquinas corredeiras

Rocha Dias e Sinimbu

E Viriato de Medeiros

Essas três locomotivas

Quando corre tudo arromba

Quem tiver no seu camim

Elas mata com a tromba.


Fonte: Acervo de Itamar de Oliveria Lima. In:”A Estrada de Ferro, “símbolo da modernidade” numa terra flagelada pela seca. André Sousa Furtado.

Foto: Como se vê, a foto é da época das "Marias Fumaças". Não dá para identificas, mas, com certeza é uma das três locomotivas acima descritas, em foto tirada na cidade do Ipu. Disponível em: http://opiniaoipugrande.blogspot.com/2010/10/nova-historia-do-ipu-encarte-do-jornal.html.

domingo, 19 de junho de 2011

A IGREJA DE SÃO PEDRO DE CAMOCIM .


Pouca gente sabe, mas, a construção da Igreja de São Pedro teve outras motivações para além dos objetivos católicos de evangelizar, catequizar ou venerar o primeiro Papa da Igreja Catolíca. No caso de Camocim, iniicalmente uma insignificante vila de pescadores, a associação com São Pedro, apóstolo de Jesus, pescador de peixes, e homens posteriormente, poderíamos dizer que não havia maior apelo que este. No entanto, o mentor da construção do templo que hoje ainda domina a paisagem do bairro do mesmo nome, Padre Manuel Henriques, em carta aberta datada de setembro de 1938 dirigida à população, principalmente aos comerciantes da época, destaca que tal empreendimento, para além "das necessidades não sómente espirituaes e moraes (...) mas também sociaes e patrioticas", serviria para que os cristãos se precavessem "contra a callamidade do communismo, apregoada fascinantemente pelas organizações inimigas". Mesmo Camocim sendo um reduto da militância comunista no Ceará neste período, o povo também é católico e os apelos do padre foram concretizados quatro anos depois. Em 29 de junho de 1942 a Igreja de São Pedro foi inaugurada e abençoada pelo Padre Inácio Nogueira Magalhães conforme nos informa o 1º Livro de Tombo da Paróquia de Bom Jesus dos Navegantes. 1904-1930, à página 33. A carta recuperada pelo blog e publicada nessa postagem foi dirigida ao Sr. F.Menescal Carneiro. Ainda com relação à Igreja de São Pedro, em 29 de março de 1973 foi criado o Curato de São Pedro na Reunião do Prebistério realizada em Tianguá. Uma pesquisa maior pode recuperar o universo das doações para a construção do templo católico, assim como das iniciativas da população do bairro para o mesmo intento. Essa é a nossa contribuição para a história da Igreja de São Pedro que este ano faz o seu sexagésimo nono aniversário.

terça-feira, 14 de junho de 2011

NO MAR E NO AR DE CAMOCIM


Camocim experimentou significativo progresso entre as décadas de 1920 a 1950 proporcionado além da instalação de repartições públicas estaduais e federais, alguns melhoramentos e pioneirismos associados à prosperidade da cidade, o que demarcava sua importância no cenário estadual. A cidade era servida por rotas regulares de vapores e navios que tocavam os portos do norte e do sul do Brasil e de linhas estrangeiras. Para ilustrar, temos abaixo o anúncio antecipado dessas rotas e escalas para o mês de janeiro de 1927, no jornal A Razão:

NO MAR E NO PORTO

Vapor Uno – Sahiu do Rio de Janeiro a 1 do corrente, sendo aqui esperado a 26 deste.

Vapor Campeiro – Carregará no dia 20 para Porto Alegre e escalas.

Vapor Itapoan – Carregará a 24 para Porto Alegre escalando somente em Recife, Rio de Janeiro, Santos, Rio Grande e Pelotas.

Vapor Itapeuá – Chegará neste porto procedente de Recife, a 25 do corrente sahindo a 26 para Belém e escala.

Vapor Bremenhaven – É esperado neste porto a 5 de janeiro próximo, recebendo cargas directamente para os portos de Havre, Antuérpia e Hamburgo e com transbordo para os demais portos do continente europeu. [1]

Além dos vapores, os aviões também faziam seus roteiros incluindo Camocim em suas rotas. No mesmo jornal, vê-se a programação dos vôos:

Transporte Aéreo

É o seguinte o horário da Panair atualmente em vigor. Horário dos aviões da Panair do Brasil S/A.

RUMO SUL

DOMINGO – às 11 horas não escala em Fortaleza.

TERÇA – às 11 horas com escala em Fortaleza.

RUMO NORTE

SABADO – às 11 horas, não escala em Fortaleza.

SEGUNDA - ás 11 horas, com escala em Fortaleza.

MALAS – Fecham-se às 9 horas, para qualquer sentido.

Avião Militar

RUMO NORTE

SEXTA-FEIRA – Fechamento das malas 5ª. Feira às 16 horas.

ESCALA: Parnaíba, Terezina, Belém, Floriano, Campo Maior e Peripery.

RUMO SUL

SABADO – Fechamento das malas 6ª. feira às 15 horas.

ESCALA – Acaraú, Fortaleza e Rio de Janeiro. [2]

Algumas das empresas aéreas como a Panair do Brasil, com sua frota de hidroaviões, construiu estrutura de apoio em Camocim, ainda hoje podendo se ver algumas dessas instalações, fazendo com que a cidade se notabilizasse como pioneira no transporte aéreo no interior cearense. Os anúncios dos jornais da época se prestam como uma excelente fonte para se perceber a importância desse movimento do porto para a economia da região. Veja-se, por exemplo, o que o jornal “A Lucta”, publica:

Movimento do Porto de Camocim.

- Commandatuba, da Companhia Bahiana, sahiu do Recife a 3 do corrente devendo passar a 7 ou 8 para Amarração, de onde regressará para o sul, com escala por Camocim a 10 ou 11.

- Pihauy, da Comercio e Navegação, esperado do Rio, de onde sahiu a 29, a 18 ou 20.

- Cururupny, da Maranhense, passou ante-hontem para o Recife, de onde é esperado a 25.

- O vapor Sobral está em viagem para o México, deve ancorar em Camocim, onde carregará para o Pará nos primeiros dias de junho.

- O paquete Parnahyba está em reparos em Belém, de onde em breve sahirá a fazer sua linha de Camocim a Belém. [3]


[1] A Razão. 18 de dezembro de 1927, Camocim-CE, p. 4.

[2] Id. ibidem.

[3] Jornal A Lucta, 07 de maio de 1914. Sobral-CE, p.02.

FOTO: Vista aérea de Camocim. Vando Arcanjo