sexta-feira, 4 de setembro de 2015

V SC. 03 - A LEI DA BALA E A IMPRENSA EM CAMOCIM.





Jornal O Ceará. Fortaleza, 12/03/1928, p.7
Não é de hoje que os ditos "homens de imprensa" são vítimas da violência. O preceito constitucional da livre expressão quase sempre era soterrado pela lei do mais forte ou como sugere a matéria jornalística aqui apresentada, pela "lei da bala". Voltemos pois, aos acontecimentos em Camocim no ano de 1928. Era tempo de eleição e o jornalista Francisco Theodoro Rodrigues (Chico Teodoro) com seu jornal "O Operário", fazia campanha para eleger uma representação dos trabalhadores à Câmara Municipal. Naquela época, o sistema eleitoral permitia que os partidos políticos distribuíssem as cédulas já votadas para os eleitores, que só tinham o trabalho de ir á seção para depositá-la na urna. Deste modo, o jornalista denuncia em carta para outro jornal, "O Ceará", como as coisas se sucederam em Camocim quando ele e outros companheiros tentaram fazer uma reunião com os sócios da Sociedade Deus e Mar para distribuir as cédulas, que naquela época congregava portuários e estivadores, principalmente. Vejamos trechos dessa carta: "Na hora em que íamos abrir a porta do edificio em que funcciona esta sociedade, o delegado de polícia local, á frente de um contigente de soldados armados nos intimou a abandonarmos a idéa da alludida reunião. Allegamos que tanto os estatutos de nossa sociedade como a Constituição da Republica nos garantia esse direito, tendo como resposta, de um sobrinho do delegado, o sr. José Carlos Véras, que a lei era bala (bala nelles!) [...] Hoje, quando se começava a distribuir as chapas eu, apezar e socio da "Deus e Mar", fui, injustificavelmente e violentamente, preso, conduzido ao xadrez e conservado incommunicavel. A maioria do eleitorado aqui é operária e a victoria dos nossos candidatos seria certa se a lei do "bala nelles", não imperasse, irritantemente com ostensivo menosprezo a todas as garantia e direitos eleitoraes. [..] Nem esta carta saberei se chegará à vossas mãos. São nove horas e a luz do cubiculo é pessima.
O director de "O OPERARIO"
Estamos em pleno século XIX, mas, de vez em quando, por este e outros motivos, uma voz se cala.
Fonte: Jornal "O Ceará". Sexta-feira, 12 de março de 1928, p.7.

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