domingo, 15 de setembro de 2013

III SC 09 - AS ANTIGAS CACIMBAS DE CAMOCIM

Cacimba. Fonte: daylawell.blogspot.com
Não sou tão velho assim, mas as cacimbas até bem pouco tempo atrás faziam parte do nosso cotidiano. Para sempre se perderam as conversas e outros tipos de relações que esses encontros no pé da cacimba proporcionava. Com a modernidade e com as novas exigências no campo da saúde e da higiene, ter água tratada por um sistema de abastecimento passou a ser imperativo para cidades do porte de Camocim. Com a chegada da água encanada, as cacimbas foram perdendo espaço nos quintais das casas, sendo demolidas e aterradas, à medida que as casas iam adquirindo o serviço do SAAEMinha primeira relação com uma delas foi a que existia na casa do Sr. José Guilherme (pai dos amigos Olivar e Ozenard). A boca era tão alta que eu, garoto de sete, oito anos de idade, tinha que ficar nas pontas dos pés para alcançar o balde. Depois mudamos para a Rua 24 de Maio (Rua do Egito). Na casa que meu pai comprara tinha uma cacimba menor, que no inverno de 1974 encheu até à boca, jorrando água para fora. Nessa cacimba tinha uma bomba manual que facilitava o serviço de tirar água. Nos invernos "fracos", lembro que foi a cacimba do Sr. Mário Monteiro, na General Tibúrcio que salvou muita gente das redondezas. Se retrocedermos na história, as cacimbas tiveram importância capital para aliviar os rigores das secas. Teve uma "cacimba do padre", que os registros dizem ter sido localizada por detrás da Igreja Matriz. Na Praça Pinto Martins, uma cacimba servia a quem se utilizava do Mercado Público e era um dos poucos bens que a municipalidade registrava no final do século XIX.  Acho que ainda hoje ela deve estar camuflada entre os quiosques da referida praça. No pátio da Estação Ferroviária um grande cacimbão quase em frente da nossa casa da Rua do Egito, era o local preferido dos jovens das ruas próximas todas as tardes, que escalavam a grande boca e pulavam de cabeça desafiando o perigo que representava os trilhos jogados lá dentro, segundo diziam. Com o tempo, animais mortos e lixo foram sendo jogados nesse local tornando impraticável esse divertimento. Contudo, lembro que um jovem desavisado, empolgado com as peripécias do amor, achou de namorar justamente na boca desse cacimbão e, não se sabe como, acabou caindo nele com a jovem parceira a tiracolo. Foram socorridos pelos moradores em plena madrugada.  A partir daí passou a ser chamado de outra forma, carregando para sempre o "Cacimba" no nome. Com a ajuda de leitores do Camocim Online registramos ainda a antiga Cacimba da Prefeitura "onde toda manhã os detentos faziam suas faxinas na limpeza das celas e onde depois do jogo no campo ao lado do prédio da Prefeitura, a gente ia se refrescar, tomando banho, quando o pai do Chico Pedim, deixava "Seu Pedrinho"", diz-nos o leitor Serrote. Já o Programa Última Trombeta recorda de: "Uma das cacimbas mais conhecidas e que mais serviu o povo de Camocim, com água de boa qualidade, foi a da dona Paty (Vila Paty - travessa rua da República). Os irmãos Jairo (gago) e Jonas vendiam a água dessa cacimba em "ancoretas" (pequenos barris de madeira), transportada em lombo de jumento. Era como beber água mineral. O gago gritava: "olha a ácua boa, pessoal"! E para fechar o professor Olivando Almeida registra:"Na Rua Quintino Bocaiúva, no bairro do Cruzeiro, tinha uma cacimba bem no meio da rua, onde muita gente ia pegar água. Inclusive, a dona Alzira, uma senhora que passava a madrugada pegando água para lavar roupas. Alguns moradores dizem, que de vez em quando, na calada da noite, se ouve o ringido do carretel. Será visagem? E você, tema a sua cacimba na mente?

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

III SC 08 - A VOCAÇÃO NAVAL DE CAMOCIM

Navio "Camocim". Fonte:solariseditora.com.br
Com as recentes notícias de que há uma possibilidade de instalação de um estaleiro naval em Camocim com capital russo ou mesmo da intenção de Nelson Piquet também de criar um empreendimento da mesma natureza, há que se buscar na história algumas coincidências que puseram o nome de Camocim em evidência. Não à toa, em 1937, a Marinha Brasileira, através do seu Ministro Aristides Guilhem e do Presidente da República Getúlio Vargas orgulhavam-se de dotar a Armada brasileira de mais um navio mineiro, o terceiro, denominado "Camocim". Com efeito, o jornal "O Globo" de 11 de dezembro de 1937 estampava em primeira página: "PARA O BRASIL - UMA ESQUADRA CONSTRUÍDA PELOS BRASILEIROS". Em tipos menores e abaixo da manchete os dizeres: "Reaffirmaram-se hoje as grandes possibilidades no dominio das construcções navaes com o batimento da quilha do 'Camocim'".
Não somente pela coincidência histórica da utilização do nome Camocim como marco da indústria naval brasileira que realçamos a matéria do jornal carioca do século passado, mas também pela possibilidade de realmente um dia podermos noticiar que daqui de Camocim partem embarcações feitas pelas camocinenses, além de torcermos para que não seja mais uma promessa política em tempos pré-eleitorais.

Fonte: O Globo.11/12/1937.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

III SC 07 - O DEFESO DO CARANGUEJO EM CAMOCIM

Vendedor de caranguejo. Camocim. Foto: Arquivo do blog.
Se tem uma coisa que rima com Camocim é caranguejo. No entanto, cada vez mais eles estão se tornando mais raros e menores. Pude conferir isso domingo passado na Barraca da Valdete no outro lado. Para quem comeu caranguejos e siris enormes, corós carnudos e camarões corados, como uma vez escrevi numa canção, logo vem à mente a falta de uma política de preservação do nosso crustáceo. Não somente política, como também conscientização das pessoas que vivem desse comércio (dos que capturam e dos que vendem), assim como da população que consome. Os vendedores do mercado já ficam olhando diferente quando chego logo dizendo que não quero caranguejo fêmea na minha corda, assim como quando sento à mesa de uma barraca ou restaurante. Contudo, apesar de tudo isso, as ações de controle não são de hoje. Desde os anos 1970 que os órgãos de fiscalização do governo tentam contem a captura exagerada e fora do tempo das espécies marinhas, conforme atesta o oficio abaixo da Seção Regional da SUDEPE - Superintendência do Desenvolvimento da Pesca, endereçado ao Presidente da Associação Comercial de Camocim, procurando saber os métodos de captura, os tipos de caranguejo desta área litorânea. No entanto, estas ações, na maioria das vezes ficas apenas nas intenções e nada é feito. O atual defeso do caranguejo é respeitado em Camocim. Quem fiscaliza? Não é surreal, para não dizer catastrófico a falta de um contingente do IBAMA em Camocim para atuar nessa área e outras demandas dos ecossistemas locais? Enquanto isso, o nosso caranguejo vai diminuindo de tamanho rumo à extinção!   
Ofício Nº 205/70. Fonte: Associação Comercial de Camocim.

sábado, 7 de setembro de 2013

III SC 06 - OS DESFILES DE 7 DE SETEMBRO EM CAMOCIM

Desfile de 7 de Setembro. Escola General Campos. 1991. Arquivo do blog.

Eis que nessa fase de remexer o baú me deparo com esta foto em que apareço com alunos da Escola Municipal General Campos. No momento em que escrevo esta postagem o fundo musical são os tambores do desfile de 7 de setembro que acontecem neste ano na Rua Dr. João Thomé. As lembranças são inevitáveis e as mudanças também. Se antes, principalmente, no período da ditadura civil-militar de 1964, os desfiles tinham um sentido bem demarcado, tendo consequência, inclusive, no jeito de desfilar - os alunos das escolas eram treinados para um desfile militar, além da recorrência a fatos e episódios da História do Brasil, hoje, a Parada de Sete de Setembro, como também era chamada o desfile, é mais um desfilar diante das autoridades constituídas, sem muitas pompas, onde as escolas procuram mostrar mais seus projetos pedagógicos e ações de sucesso. Por outro lado, é também oportunidade da administração municipal de promover diante de todos seus feitos conseguidos. Como tudo nessa vida, o desfile também assume as cores do seu tempo! E por falar nisso, alguém já enfeitou hoje sua bicicleta em verde-amarelo, espontaneamente?

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

III SC 05 - A PESQUISA SOBRE O COMUNISMO EM CAMOCIM

"Historiador faz pesquisa sobre Partido Comunista em Camocim. Fonte: Tribuna do Ceará. 1998. Fortaleza.

Parece que foi ontem, mas já faz mais de quinze anos que iniciamos a pesquisa sobre a experiência ideológica dos militantes comunistas em Camocim. Começou com uma simples informação sobre o apelido que a cidade recebeu por conta dessa militância em Camocim, a "Cidade Vermelha". Daí em diante, com a possibilidade de iniciarmos uma carreira acadêmica, começamos por uma monografia num Curso de Especialização em Teoria da História, na UVA, depois veio o Mestrado em História Social na UFRJ/UFC e, finalmente com desdobramentos no  Doutorado na UFPE. Foram muitas horas, dias, meses e anos nos arquivos de Camocim, Fortaleza e Rio de Janeiro, escarafunchando documentos, lamentando a ausência de outros (principalmente dos produzidos pelo PCB), entrevistando pessoas (algumas morreram antes de conceder seu depoimento) além das orientações, da leitura de textos, livros e da solidão da escrita, afora as horas furtadas da família. Tudo isso, no entanto, foi compensado com a publicação da dissertação de mestrado e do reconhecimento dos conterrâneos e dos meus pares na academia em inúmeros eventos em que apresentamos os resultados dessas pesquisas. No final de setembro, apresentaremos parte destes textos publicados na imprensa local e alguns inéditos enfeixados em livro (Sobre Camocim. Política, trabalho e cotidiano), juntamente com outros trabalhos dos professores Carlos Manuel e Francisco Rocha. A foto acima marca o início dessa caminhada no ano de 1998, quando fomos entrevistados pelo então correspondente do jornal Tribuna do Ceará em Camocim, Denilson Siqueira.

III SC 04 - O VEREADOR SALINEIRO DE CAMOCIM

Câmara Municipal. Foto:camocimimparcial.blogspot.com

Com a profissionalização da política atualmente, fica até difícil imaginar um vereador vindo do povo, trabalhador das salinas, sem receber salários para comparecer às sessões e ainda ter que justificar suas faltas às mesmas. Pois  isto já aconteceu num tempo em que a Câmara Municipal de Camocim era composta por homens (e até uma mulher!) que, apesar de seus interesses próprios e convicções políticas partidárias, tinham alguma ideia do que era a noção de representar a população junto ao poder legislativo. A Sessão Ordinária de 17 de maio de 1963 nos dá bem um retrato de como era exercido os mandatos há cinquenta anos atrás. Abaixo transcrevemos um trecho da mesma em que o então vereador Luiz Damião de Oliveira (ainda vivo entre nós) demonstra a simplicidade do exercício do mandato, um simples salineiro, que posteriormente foi uma liderança dos portuários, envolvido na faina cotidiana do seu trabalho para prover a família e ainda tendo obrigações junto à Câmara. Leiamos?


14ª Sessão Ordinária –5ª Legislatura, 1º Período Legislativo. 17 de Maio de 1963.

(...)

Em seguida foi lido pelo Snr. Vereador Luiz Damião de Oliveira o Projeto de Lei Nº 5/63, de 10/5/63, de sua autoria, que “Autoriza o Chefe do Poder Executivo Municipal criar tornando feriado municipal todos os dias santificados, reconhecidos e respeitados pela Igreja Católica Apostólica Romana desta cidade”. Continuando justificou as suas faltas de comparecimento às sessões, isto,verificou-se quando o mesmo está trabalhando nas salinas em carregamento de vapores e não haver na ocasião das sessões transportes para tal fim.

Para termos um panorama da composição da Câmara naquela legislatura segue abaixo a relação:

1963Presidente – Amanajás Passos de Araújo

1964/1965Presidente – Antonio Marques de Almeida

1966Presidente – Luis Lopes Viana



VEREADORES:



Carlos Alberto Nóbrega

Gregório Francisco Alexandrino

João Oldernes Fiúza Lima

Luis Damião de Oliveira

Maria Carmelita Veras de Paula

Mauricio Lacerda Rêgo

Otavio de Santana

Raimundo Ferreira de Albuquerque

(Suplente) Joaquim Pereira de Brito

(Suplente) Valdemar Bessa

Prefeito: João Batista Aguiar

Vice: Setembrino Véras.

Fonte: Livro de Atas. Arquivo da Câmara Municipal de Camocim.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

III SC 03. RECORDAÇÕES DO FESTIVAL DE MÚSICA DE CAMOCIM

Letra da música "Camocim". 1991. Arquivo do blog
Remexendo nos meus arquivos eis que me deparo com a letra da música "Camocim", concorrente do Festival que acontecia na cidade no mês de setembro. Dizem até que o evento vai voltar. Tomara que seja verdade. O referido documento data de 08 de julho de 1991 e trata-se do registro da letra no Cartório André do 2º Ofício, como atesta a assinatura da saudosa tabeliã, Sra. Iolanda Gomes. A letra da música "Camocim" é de minha autoria e ela me veio à mente numa tarde quando eu, meu amigo Adeilson de Senador Sá (in memorian) e o Hélio, também daquela cidade, dedilhava um violão no antigo Restaurante Odus enquanto eu olhava "os mastros dos bastardos sem pano. Letra feita, apresentei-a ao grande músico camocinense Rildo Vilela, que infelizmente nos deixou e foi animar os bailes celestes. No VI Festival de Música de 1991, a música foi interpretada pela cantora Aparecida Silvino e acabou se classificando em 2º lugar. Abaixo a letra na íntegra, que na versão musicada sofreu algumas alterações. Infelizmente não temos o registro sonoro:

Camocim 


Letra: Carlos Augusto
Música: Rildo Vilela

I
E eu d'aqui
Olhando os mastros dos bastardos sem pano.
Mini-gigantes emergindo do mar
Como dedos do oceano.
II
Das Barreias ao Cais 
São tantos ais, que eu nem conto.
Em cada abraço apertado,
Extasiados, casais se encantam.
III
Na terra do sol,
CAMOCIM, pedaço de litoral.
Queremos ser terra do sal,
Mas com os mangues
Enverdecendo o arrebol.
IV
Alvejando o luar
Tuas dunas desnudas
Pedem vegetação.
Teus mangues emboras mudos
Gritam por preservação.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

III SC 02 - A RUA SANTOS DUMONT EM CAMOCIM E SEUS CODINOMES


Rua Santos Dumont. Camocim-CE. Fonte: googlemaps
A Rua Santos Dumont em Camocim, talvez seja a que tenha tido mais codinomes em toda sua extensão e história. Isso é muito interessante pois mostra que uma rua é viva e tem íntima relação com seus moradores e com os outros habitantes da cidade, conferindo-lhes uma certa identidade. Caso típico é esta rua que vamos comentar. Antes de receber o nome do "Pai da Aviação", era batizada de Rua da Aurora, como nos lembra o saudoso memorialista Artur Queirós: “... assistimos da calçada de nosso avô Joaquim Carneiro, à rua da Aurora, hoje trecho da rua Santos Dumont, ao insolente e tétrico fogaréu”. (Fonte: SPORT CLUB, In: QUEIRÓS, Artur. Recordações camocinenses e outras memórias. 2ª edição. Fortaleza: RBS Gráfica, 2003, p.40). 
Talvez por chamar-se Aurora, o referido trecho também ficou imortalizado como "Rua do Sol", denominação que até hoje é chamada romanticamente pelos mais velhos.
Seguindo na direção sul-norte temos o Apertada-hora, no cruzamento das Ruas Boa Vista (atual D.Pedro II) com Marechal Floriano. Mais uma vez Artur Queirós nos socorre na descrição: “Local macabro e desabitado, temido por causa das assombrações comentadas. Por ali apenas se passava de dia e, mesmo assim, arredio e desconfiado, com as pernas de sobreaviso para eventual carreira. Á noite, nem pensar. Era necessário um longo contorno por outras ruas, para se evitar o ‘Apertada-hora’,rumo ao centro”. (Fonte: LOBISOMENS E VISAGENS.In: QUEIRÓS, Artur. Recordações camocinenses e outras memórias. 2ª edição. Fortaleza: RBS Gráfica, 2003, p.47-8). 
Seguindo mais à frente, tínhamos a Rua do Macêdo, trecho de casas usadas por prostitutas no trecho que fica imediatamente atrás da Igreja de São Pedro. E a sua rua, tem outros nomes e codinomes?