segunda-feira, 20 de julho de 2015

O TREM DE CAMOCIM... E SUA VOLTA TRIUNFAL NAS TELAS DE EDUARDO SOUZA

Eduardo Souza e ex-ferroviários da RVC. Fonte: facebook.
Tela de Eduardo Souza. Camocim. Fonte: facebook
Não, não foi a realização de uma promessa política! O Trem voltou à gare da Estação de Camocim pelas mãos do artista plástico Eduardo Souza. Ontem não encontramos gente em polvorosa embarcando e desembarcando dos vagões da "Rapariga Velha Cansada" (RVC) puxados por uma resfolegante Maria Fumaça ou mesmo por uma potente locomotiva a diesel. Ontem, não mais o orvalho da fonte luminosa e o aperto do Balaio de Gato...Ontem, tudo isso foi reavivado pelas tintas e pinceis de um artista que sonhou com uma estação cheia de ferroviários e pessoas comprando passagem para a memória de dias idos numa viagem sem destino à nossa história. Ontem, o espaço onde o trem dormia despertou de repente e ficou repleto de gente e arte, mostrando que ele pode ser usado para a cultura de nossa história. A gare que já foi do trem pode ser nossa sala de visita para mostrarmos aos outros a riqueza do passado, os talentos do presente e a perspectiva de futuro

quinta-feira, 9 de julho de 2015

A BÊNÇÃO DA IGREJA MATRIZ DE CAMOCIM

Igreja Matriz de Camocim.2015. Foto: Robervaldo Monteiro.
Corria o ano de 1913. A cidade finalmente encheu-se de júbilo pelo soerguimento do seu templo católico. A ação do Padre  José Augusto da Silva chegara a bom termo após à tentativa anterior de construção da nossa Igreja Matriz ter sido infrutífera, tanto pela ação do tempo e dos homens. Com planta arquitetônica do Dr. José Privat, então engenheiro da Estrada de Ferro de Sobral, o dia 27 de julho de 1913 foi marcado pelas bênçãos da então capela da Igreja Nova, consagrada à Bom Jesus dos Navegantes. O jornal O Nortista de 7 de setembro de 1913, na coluna Os Municípios, traz a notícia em pequena nota:

Igreja Matriz de Camocim. Fonte: NEDHIS/UVA

Camocim

O mez de julho, foi para nós, um mez cheio:
(...)
Á 27 = bênção da capella da Igreja nova, cuja festa foi a maior e mais sollene que tivemos este anno, quiçá uma das mais deslumbrantes que tem havido em Camocim nestes últimos tempos.
A bênção da capella foi feita pelo nosso vigário Pe. José Augusto da Silva.
Celebrou a missa principal, que foi cantada, o Revmo. Dr. Tupinambá da Frota, acolytado pelos Revmos. Dr. Aureliano Mota, digníssimo vigario de Ipú e Revdmo. V. Martins da Costa, muito digno vigario da visinha cidade de Granja. Fez o sermão allusivo a sollenidade, o Revmo. Aureliano Mota, que dissertou brilhantemente sobre o '"templo catholico".
A festa esteve muito sollene e concorridíssima, pena é que não houvesse uma penna que a descrevesse... À noite houve leilão em benefício da continuidade das obras da matriz, cuja parte exterior da mesma ainda está por acabar.
Até o nosso "Gabinete de Leitura" commemorou, si bem que intimamente, esse grande dia, que foi de regosijo geral para todos os camocinenses.

Portanto, no próximo dia 27 de julho de 2015, nossa Igreja Matriz comemorará 102 anos da benção de suas instalações. Comemoremos, pois.


Fonte: Jornal O Nortista, 07 de setembro de 1913, Anno II, nº 48, p.2.


quarta-feira, 8 de julho de 2015

A CENTENÁRIA CAPITANIA DOS PORTOS DE CAMOCIM


Capitania dos Portos em Camocim. Fonte:www.panaromio.com
 No último de 05 de julho, a Capitania dos Portos em Camocim completou mais um ano de sua existência no município. Entre idas e vindas da burocracia, a instituição centenária está presente entre nós desde 1899, portanto, há 116 anos. Nascido com a vocação marítima, no entorno de um porto, Camocim não poderia prescindir de uma capitania para organizar e fiscalizar as atividades decorrentes dessa vocação. Por outro lado, contextualizar a presença de uma instituição desse porte num município é mergulhar na sua história, na história dos homens que a fizeram em seus tempos determinados.
Desta forma, a Capitania dos Portos não é somente a representação da Marinha do Brasil enquanto integrante das Forças Armadas do Brasil em Camocim. Ela também é o órgão que deverá estar junto dos nossos empresários de pesca, dos nossos pescadores artesanais, na guarda de nossa Amazônia Azul, portanto, atuante na defesa do nosso ecossistema.
Observando o suceder dos homens que atuaram como agentes na condução de nossa Capitania dos Portos ficam questionamentos: o que fizeram o FC Vicente Esmerino Lopes no longínquo período de 1929 a 1930, ou mesmo o ESC. 3ª Classe Pedro Aguiar que esteve à frente do órgão do 12 anos (1930 a 1942)? Suas ações se foram na poeira dos tempos ou estão guardados em documentos e memórias ainda não ditas. Quando se pode ter acesso às ações humanas, sejam contadas por testemunhas, documentos ou mesmo por quem de direito, poderemos avaliar sua validade. Deste modo, o 2º Ten. (ES-RRM) Octávio de Santana, que comandou a Capitania dos Portos entre 1953 a 1957 nos contou comovido sobre a singeleza arquitetônica das casas dos pescadores, numa Camocim ainda em fase de urbanização. As casas, segundo ele: “... tinha como cobertura a vela que acionava suas canoas; chegava do mar estendia a vela e de manhã tirava, a casa tinha como parede folha de coqueiro." Tenente Santana acabou se incorporando à vida da comunidade atuando na Colônia dos Pescadores e se elegeu vereador várias vezes. Hoje, outros tantos tem suas vidas entrelaçadas com a nossa cidade, com o nosso povo.


quinta-feira, 2 de julho de 2015

DEPUTADO MURILO AGUIAR - 30 ANOS DE MORTE.

Foto: www.antonioviana.com.br.

No ano passado foi comemorado um século de nascimento do Deputado Murilo Rocha Aguiar, representante de Camocim e região na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará. Neste 1º de março de 2015 completou 30 anos de sua morte   em plena eleição para renovação da Mesa Diretora da Assembléia Legislativa do Estado do Ceará em março de 1985, onde disputava a presidência da casa com Castelo de Castro. Neste espaço já detalhamos os fatos daquela fatídica tarde-noite (http://camocimpotedehistorias.blogspot.com.br/search?q=Murilo+Aguiar, 09 de agosto de 2012). 

Vejamos como o Jornal O Povo noticiou o ocorrido em sua sessão "Há 30 anos atrás":

Castelo ganha, há tumulto e Murilo morre

Em sessão bastante tumultuada, com pancadarias e agressões físicas, o deputado Castelo de Castro (PMDB) foi proclamado eleito ontem Presidente da Assembleia Legislativa, com 23 votos contra 21 de Murilo Aguiar (Frente Liberal), escolhido para substituir o deputado Antônio Câmara, candidato inicial. Murilo Aguiar faleceu a 1h40min de hoje, vítima de enfarte cardíaco, no Prontocard, para onde foi levado ao sentir-se mal horas depois da confusão.


segunda-feira, 22 de junho de 2015

RAIMUNDO CELA EM CAMOCIM - PARTE II

Companhia de Força e Luz de Camocim. CFLC. Fonte: Arquivo do blog.
De volta da Europa, Raimundo Cela teve que retornar á Camocim. Com a morte do pai, o destino o trouxe à bucólica Camocim para "proporcionar uma certa assistência á mãe, no início de 1923". Filho devotado à mãe, só após a morte desta em 1927 é que o artista procurou casar-se. Depois de "dois noivados desfeitos", contraiu matrimônio " com a amazonense Eunice Medeiros, ele com 44 anos e ela com 21." 
Cuidando da pequena usina de energia elétrica denominada de Companhia de Força e Luz de Camocim - CFLC, Raimundo Cela não deixou de pintar. Seu ateliê ficava ao lado do prédio da usina (situado nas esquinas da Rua 24 de Maio com General Tibúrcio), até ser redescoberto para o mundo das artes em 1933 pelo poeta e pintor Otacílio Azevedo. Segundo as palavras do poeta:

"Uma das minhas mais extraordinárias surpresas da minha vida foi quando, como fotógrafo, em 1933, fui, por intermédio de Péricles Serpa, visitar em Camocim, o ateliê de Raimundo Cela. Ao penetrar no recinto, parecia-me tudo aquilo uma estranha aventura, arrancada das páginas das 'Mil e uma noites', tal a riqueza de quadros deslumbrantes que me ofuscavam a vista".

A atividade artística de Raimundo Cela em Camocim era dividida com o trabalho na usina, com a leitura de Chateaubriand e da audição da música de Beethoven, de quem guardava uma réplica da máscara mortuária. Dizem que caminhava pela cidade sempre de "ternos de linho branco, sapatos pretos ou marrons muito polidos, gravatas, camisas e meias discretas e bem cuidadas." Enquanto esteve na cidade, "participava das rodas de conversas na farmácia local, de José Torquato Pessoa e, mais tarde, de Antonio Passos Filho, onde se reunia á noite parte dos intelectuais da cidade."
Em 1938, mudou-se novamente para Fortaleza levando a família. Durante sete anos na capital, participou ativamente de exposições e movimentos artítiscos, para tomar rumo definitivo ao Rio de Janeiro em 1945.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

RAIMUNDO CELA EM CAMOCIM - PARTE I

Fonte: www.youtube.com
Após falarmos um pouco sobre a arte de Raimundo Cela, vamos nos deter um pouco sobre as estadas e moradas do artista plástico em Camocim, tendo como referência bibliográfica a mesma obra das postagens anteriores. Como já se disse, chegando em Camocim com quatro anos de idade (1894), Raimundo Cela teve em nossa cidade o contato com as primeiras letras tendo como professora a própria mãe, Maria Carolina Brandão Cela. Infância e começo da adolescência, Raimundo Cela usufruiu das amenidades climáticas que Camocim proporcionava. Como nos diz Estrigas, seu biógrafo: 

"O horizonte abria-se até a linha onde o oceano se confundia com o céu. As praias bonitas, os barcos insinuando viagens longínquas, sonhos, desejos e o porto tentando com o seu movimento na chegada e saída de barcos. O horizonte abria-se para tudo. O caminho se fazia, se mostrava por todos os lados. Camocim aconteceu na sua vida".

Foi, portanto, em Camocim, que o menino Raimundo se "entendeu" no mundo. Aos dezesseis anos (1906) o jovem dá seu primeiro salto e vai morar em Fortaleza. Não se tem muitos registros de sua passagem pela capital, mas, ao completar o curso no Liceu (1910), aos vinte anos viaja para o Rio de Janeiro para cursar a Escola Nacional de Belas Artes para dar vazão à sua vocação artística, além de engenharia, para se tornar apto a gerir os negócios da família.  No Rio de Janeiro, se destaca como aluno dos dois cursos superiores e em 1917, ganha um prêmio para cursar artes na França com o trabalho O último diálogo de Sócrates, que só o fará em 1920, por conta da Primeira Guerra Mundial. Como diz seu biógrafo: "No rumo certo. no tempo certo, o cearense Raimundo Brandão Cela, filho de Sobral, adotado por Camocim, partia para o 'coração do mundo' em sua primeira experiência internacional".

Em sua estada na Europa, quando estava em sua melhor forma artística, com bom desempenho no curso de gravura, "a ponto de ser chamado de mestre", problemas de saúde abreviaram a estada de Raimundo Cela na Europa e seu reconhecimento internacional, "pouco antes de completar três anos na Europa, a voltar para o Brasil, ao Ceará, a Camocim".

Na próxima postagem enfocaremos a segunda estada do artista em nossa cidade.

domingo, 17 de maio de 2015

CAMOCIM E A ARTE DE RAIMUNDO CELA - II

Paisagem de Camocim-CE, 1937. Raymundo Cela
Uma pesquisa puxa outra. Após a postagem anterior resolvemos procurar algumas imagens dos quadros de Raymundo Cela e nos deparamos com uma dissertação de mestrado sobre nosso artista. Trata-se de  PINTURA NA TRAVESSIA: A PAISAGEM LITORÂNEA NA OBRA DE RAYMUNDO CELA (1930-1950), defendida por Delano Pessoa Carneiro no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Ceará em 2010, orientado pela Profa. Dra. Meize Regina de Lucena Lucas. É bem provável que Raymundo Cela já tenha sido objeto de outros estudos, notadamente na área das artes plásticas, mas, por enquanto vamos nos deter neste. Pelo próprio título já percebemos que a relação com Camocim é imediata. Desta forma, fomos procurar no referido trabalho estas relações e, para surpresa nossa, estávamos lá citados numa passagem de contextualização do território onde Raymundo Cela viveria por dois momentos em sua vida:

Entre as décadas de 1920 a 1950 [Camocim] viveu seu “boom”econômico, político e social, proporcionado pelas atividades desenvolvidas em torno do Porto de Camocim e da Estrada de Ferro de Sobral. O Porto, aliás, ao final do século XIX e início do XX, tornou-se um dos mais movimentados do estado, por suas condições naturais, da crescente indústria do charque e o comércio de importação e exportação de outras matérias-primas da região.(SANTOS, 2000, p. 11).



Nos capítulos da dissertação, o autor explora aspectos da vida e da formação artística de Raymundo Cela. A leitura do trabalho esclarece algumas dúvidas quanto à estada do artista em nossa cidade. Num primeiro momento, ele chega em Camocim em 1894, com quatro anos de idade e fica até os dezesseis anos (1906), quando parte para Fortaleza e de lá para o Rio de Janeiro e Europa.  Diz nos Delano Pessoa Carneiro sobre seu retorno para Camocim em 1923, com 33 anos e não em 1928, como assinalamos na postagem anterior: 

Portanto, não era apenas uma pequena vila de pescadores situada nas margens do Rio Coreaú e do Oceano Atlântico. A cidade de Camocim era o principal centro importador e exportador da região Norte do estado. É oportuno mencionar que em 1939, Raymundo Cela pintou duas telas, nas quais o porto de Camocim, barcos a vapor, galpões, pequenas embarcações e casarões compunham a paisagem reapresentada (p34).

Ainda de forma poética, mais do que histórica, o autor acima referido "pinta" as possíveis inspirações que Raymundo Cela teve durante suas passagens ou travessias (conceito sobre o qual é estruturado o trabalho de pesquisa) por Camocim:

Na cidade banhada pelo oceano Atlântico e margeada pelo rio Coreaú, Raymundo Cela e seus irmãos tiveram os primeiros estudos regidos por sua mãe. Em Camocim, Cela tivera a oportunidade de sentir a brisa marítima, de observar a mudança das marés, o balanço dos coqueiros à beira-mar, o vai-e-vem dos navios a vapor no porto e as pequenas embarcações na margem do Rio Coreaú, como também o labor diário dos operários da ferrovia e dos trabalhadores litorâneos. (p.35).

Voltaremos a falar sobre o assunto em postagens posteriores.

Fonte:Barbosa, Delano Pessoa Carneiro. Pintura na travessia: a paisagem litorânea na obra de Raymundo Cela (1930-1950). Dissertação de Mestrado.  Universidade Federal do Ceará. Programa de Pós-Graduação em História,Fortaleza(CE),
2010.


sexta-feira, 15 de maio de 2015

CAMOCIM E A ARTE DE RAIMUNDO CELA

Porto de Camocim, 1939. Raimundo Cela. Acervo particular. Fortaleza-CE.
Das muitas preciosidades trazidas para mim por meu amigo Francisco Olivar (Vavá) em sua mais recente visita à Camocim, destaco o livro Raimundo Cela. 1890-1954, onde a vida e obra do artista é contada e ilustrada com sua profícua produção nas artes plásticas. Já tivemos a oportunidade de nos reportarmos neste espaço sobre a ligação de Raimundo Cela (1890-1954) com Camocim, desde a sua vinda para a cidade ainda criança, quando teve contato com as primeiras letras, assim como sua estadia criativa na produção de telas que até hoje encantam o mundo.  Nesta e noutras postagens vamos evidenciar o que os articulistas componentes da obra ressaltam sobre ele e a cidade. Já no prefácio, Fábio Magalhães destaca a fase em que Raimundo Cela, depois de ter morado em Camocim na infância, volta já homem feito, formado em engenharia e em artes plásticas, mas também com uma moléstia que precisava ser curada num lugar de clima como o de Camocim:

 "Alguns críticos de arte e historiadores afirmam que no período que residiu em Camocim, no interior do Ceará, e exercia a direção de uma empresa de energia elétrica, Cela continuou pintando com afinco. Outros, que se manteve praticamente afastado da pintura, exercendo-a de forma diletante, não sistemática. Há, ainda, os que dizem que ele deixou de pintar durante esse período. , [...] Mas também me parece indiscutível que, nesse período de Camocim, pintar não foi a sua prioridade. A atividade de pintar ocupou suas horas livres".(p.12-3).


A vinda de Raimundo Cela para Camocim  deu-se após quatro anos de nascido, em 1894, posto que seu pai, José Maria Cela era funcionário da Estrada de Ferro de Sobral e para cá fora transferido. Na sua segunda passagem pela cidade, provavelmente entre 1928-1938, dirigiu a usina elétrica, empreendimento em sociedade com seu irmão Fernando Cela. A referida usina era a Companhia de Força e Luz de Camocim-CFLC (localizada nas esquinas da Rua 24 de Maio com General Tibúrcio), cujo prédio ainda resiste às intempéries do tempo.