segunda-feira, 22 de junho de 2015

RAIMUNDO CELA EM CAMOCIM - PARTE II

Companhia de Força e Luz de Camocim. CFLC. Fonte: Arquivo do blog.
De volta da Europa, Raimundo Cela teve que retornar á Camocim. Com a morte do pai, o destino o trouxe à bucólica Camocim para "proporcionar uma certa assistência á mãe, no início de 1923". Filho devotado à mãe, só após a morte desta em 1927 é que o artista procurou casar-se. Depois de "dois noivados desfeitos", contraiu matrimônio " com a amazonense Eunice Medeiros, ele com 44 anos e ela com 21." 
Cuidando da pequena usina de energia elétrica denominada de Companhia de Força e Luz de Camocim - CFLC, Raimundo Cela não deixou de pintar. Seu ateliê ficava ao lado do prédio da usina (situado nas esquinas da Rua 24 de Maio com General Tibúrcio), até ser redescoberto para o mundo das artes em 1933 pelo poeta e pintor Otacílio Azevedo. Segundo as palavras do poeta:

"Uma das minhas mais extraordinárias surpresas da minha vida foi quando, como fotógrafo, em 1933, fui, por intermédio de Péricles Serpa, visitar em Camocim, o ateliê de Raimundo Cela. Ao penetrar no recinto, parecia-me tudo aquilo uma estranha aventura, arrancada das páginas das 'Mil e uma noites', tal a riqueza de quadros deslumbrantes que me ofuscavam a vista".

A atividade artística de Raimundo Cela em Camocim era dividida com o trabalho na usina, com a leitura de Chateaubriand e da audição da música de Beethoven, de quem guardava uma réplica da máscara mortuária. Dizem que caminhava pela cidade sempre de "ternos de linho branco, sapatos pretos ou marrons muito polidos, gravatas, camisas e meias discretas e bem cuidadas." Enquanto esteve na cidade, "participava das rodas de conversas na farmácia local, de José Torquato Pessoa e, mais tarde, de Antonio Passos Filho, onde se reunia á noite parte dos intelectuais da cidade."
Em 1938, mudou-se novamente para Fortaleza levando a família. Durante sete anos na capital, participou ativamente de exposições e movimentos artítiscos, para tomar rumo definitivo ao Rio de Janeiro em 1945.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

RAIMUNDO CELA EM CAMOCIM - PARTE I

Fonte: www.youtube.com
Após falarmos um pouco sobre a arte de Raimundo Cela, vamos nos deter um pouco sobre as estadas e moradas do artista plástico em Camocim, tendo como referência bibliográfica a mesma obra das postagens anteriores. Como já se disse, chegando em Camocim com quatro anos de idade (1894), Raimundo Cela teve em nossa cidade o contato com as primeiras letras tendo como professora a própria mãe, Maria Carolina Brandão Cela. Infância e começo da adolescência, Raimundo Cela usufruiu das amenidades climáticas que Camocim proporcionava. Como nos diz Estrigas, seu biógrafo: 

"O horizonte abria-se até a linha onde o oceano se confundia com o céu. As praias bonitas, os barcos insinuando viagens longínquas, sonhos, desejos e o porto tentando com o seu movimento na chegada e saída de barcos. O horizonte abria-se para tudo. O caminho se fazia, se mostrava por todos os lados. Camocim aconteceu na sua vida".

Foi, portanto, em Camocim, que o menino Raimundo se "entendeu" no mundo. Aos dezesseis anos (1906) o jovem dá seu primeiro salto e vai morar em Fortaleza. Não se tem muitos registros de sua passagem pela capital, mas, ao completar o curso no Liceu (1910), aos vinte anos viaja para o Rio de Janeiro para cursar a Escola Nacional de Belas Artes para dar vazão à sua vocação artística, além de engenharia, para se tornar apto a gerir os negócios da família.  No Rio de Janeiro, se destaca como aluno dos dois cursos superiores e em 1917, ganha um prêmio para cursar artes na França com o trabalho O último diálogo de Sócrates, que só o fará em 1920, por conta da Primeira Guerra Mundial. Como diz seu biógrafo: "No rumo certo. no tempo certo, o cearense Raimundo Brandão Cela, filho de Sobral, adotado por Camocim, partia para o 'coração do mundo' em sua primeira experiência internacional".

Em sua estada na Europa, quando estava em sua melhor forma artística, com bom desempenho no curso de gravura, "a ponto de ser chamado de mestre", problemas de saúde abreviaram a estada de Raimundo Cela na Europa e seu reconhecimento internacional, "pouco antes de completar três anos na Europa, a voltar para o Brasil, ao Ceará, a Camocim".

Na próxima postagem enfocaremos a segunda estada do artista em nossa cidade.

domingo, 17 de maio de 2015

CAMOCIM E A ARTE DE RAIMUNDO CELA - II

Paisagem de Camocim-CE, 1937. Raymundo Cela
Uma pesquisa puxa outra. Após a postagem anterior resolvemos procurar algumas imagens dos quadros de Raymundo Cela e nos deparamos com uma dissertação de mestrado sobre nosso artista. Trata-se de  PINTURA NA TRAVESSIA: A PAISAGEM LITORÂNEA NA OBRA DE RAYMUNDO CELA (1930-1950), defendida por Delano Pessoa Carneiro no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Ceará em 2010, orientado pela Profa. Dra. Meize Regina de Lucena Lucas. É bem provável que Raymundo Cela já tenha sido objeto de outros estudos, notadamente na área das artes plásticas, mas, por enquanto vamos nos deter neste. Pelo próprio título já percebemos que a relação com Camocim é imediata. Desta forma, fomos procurar no referido trabalho estas relações e, para surpresa nossa, estávamos lá citados numa passagem de contextualização do território onde Raymundo Cela viveria por dois momentos em sua vida:

Entre as décadas de 1920 a 1950 [Camocim] viveu seu “boom”econômico, político e social, proporcionado pelas atividades desenvolvidas em torno do Porto de Camocim e da Estrada de Ferro de Sobral. O Porto, aliás, ao final do século XIX e início do XX, tornou-se um dos mais movimentados do estado, por suas condições naturais, da crescente indústria do charque e o comércio de importação e exportação de outras matérias-primas da região.(SANTOS, 2000, p. 11).



Nos capítulos da dissertação, o autor explora aspectos da vida e da formação artística de Raymundo Cela. A leitura do trabalho esclarece algumas dúvidas quanto à estada do artista em nossa cidade. Num primeiro momento, ele chega em Camocim em 1894, com quatro anos de idade e fica até os dezesseis anos (1906), quando parte para Fortaleza e de lá para o Rio de Janeiro e Europa.  Diz nos Delano Pessoa Carneiro sobre seu retorno para Camocim em 1923, com 33 anos e não em 1928, como assinalamos na postagem anterior: 

Portanto, não era apenas uma pequena vila de pescadores situada nas margens do Rio Coreaú e do Oceano Atlântico. A cidade de Camocim era o principal centro importador e exportador da região Norte do estado. É oportuno mencionar que em 1939, Raymundo Cela pintou duas telas, nas quais o porto de Camocim, barcos a vapor, galpões, pequenas embarcações e casarões compunham a paisagem reapresentada (p34).

Ainda de forma poética, mais do que histórica, o autor acima referido "pinta" as possíveis inspirações que Raymundo Cela teve durante suas passagens ou travessias (conceito sobre o qual é estruturado o trabalho de pesquisa) por Camocim:

Na cidade banhada pelo oceano Atlântico e margeada pelo rio Coreaú, Raymundo Cela e seus irmãos tiveram os primeiros estudos regidos por sua mãe. Em Camocim, Cela tivera a oportunidade de sentir a brisa marítima, de observar a mudança das marés, o balanço dos coqueiros à beira-mar, o vai-e-vem dos navios a vapor no porto e as pequenas embarcações na margem do Rio Coreaú, como também o labor diário dos operários da ferrovia e dos trabalhadores litorâneos. (p.35).

Voltaremos a falar sobre o assunto em postagens posteriores.

Fonte:Barbosa, Delano Pessoa Carneiro. Pintura na travessia: a paisagem litorânea na obra de Raymundo Cela (1930-1950). Dissertação de Mestrado.  Universidade Federal do Ceará. Programa de Pós-Graduação em História,Fortaleza(CE),
2010.


sexta-feira, 15 de maio de 2015

CAMOCIM E A ARTE DE RAIMUNDO CELA

Porto de Camocim, 1939. Raimundo Cela. Acervo particular. Fortaleza-CE.
Das muitas preciosidades trazidas para mim por meu amigo Francisco Olivar (Vavá) em sua mais recente visita à Camocim, destaco o livro Raimundo Cela. 1890-1954, onde a vida e obra do artista é contada e ilustrada com sua profícua produção nas artes plásticas. Já tivemos a oportunidade de nos reportarmos neste espaço sobre a ligação de Raimundo Cela (1890-1954) com Camocim, desde a sua vinda para a cidade ainda criança, quando teve contato com as primeiras letras, assim como sua estadia criativa na produção de telas que até hoje encantam o mundo.  Nesta e noutras postagens vamos evidenciar o que os articulistas componentes da obra ressaltam sobre ele e a cidade. Já no prefácio, Fábio Magalhães destaca a fase em que Raimundo Cela, depois de ter morado em Camocim na infância, volta já homem feito, formado em engenharia e em artes plásticas, mas também com uma moléstia que precisava ser curada num lugar de clima como o de Camocim:

 "Alguns críticos de arte e historiadores afirmam que no período que residiu em Camocim, no interior do Ceará, e exercia a direção de uma empresa de energia elétrica, Cela continuou pintando com afinco. Outros, que se manteve praticamente afastado da pintura, exercendo-a de forma diletante, não sistemática. Há, ainda, os que dizem que ele deixou de pintar durante esse período. , [...] Mas também me parece indiscutível que, nesse período de Camocim, pintar não foi a sua prioridade. A atividade de pintar ocupou suas horas livres".(p.12-3).


A vinda de Raimundo Cela para Camocim  deu-se após quatro anos de nascido, em 1894, posto que seu pai, José Maria Cela era funcionário da Estrada de Ferro de Sobral e para cá fora transferido. Na sua segunda passagem pela cidade, provavelmente entre 1928-1938, dirigiu a usina elétrica, empreendimento em sociedade com seu irmão Fernando Cela. A referida usina era a Companhia de Força e Luz de Camocim-CFLC (localizada nas esquinas da Rua 24 de Maio com General Tibúrcio), cujo prédio ainda resiste às intempéries do tempo.

terça-feira, 28 de abril de 2015

A FÁBRICA DE MOSAICO DE CAMOCIM

Mosaicos. Fonte: portuguese.alibaba.com
Navegando pelo facebook deparei-me com um vídeo que mostrava uma fábrica de mosaico que ainda resiste na cidade de Barbalha-CE. Imediatamente, veio-me a lembrança da nossa fábrica que ficava na confluência das ruas da Independência, Paissandu e Marechal Deodoro da Fonseca, ali nas "seis bocas", bem no lugar onde hoje está localizada a Pousada Tropical do nosso amigo Magazine. Durante a semana, passava por lá, posto que era meu caminho rumo ao então Colégio Estadual Padre Anchieta (CEPA), hoje Colégio Estadual Professor Ivan (CEPI). Invariavelmente lançava um olhar para o interior cinzento da pequena fábrica, onde homens de torsos nus manejavam tornos, formas, tinta e cimento. Na sarjeta da casa acanhada que abrigava a fábrica deste ofício que virou arte, uma água colorida pelas tintas usadas para realçar os desenhos dos mosaicos, escorria ao longo da rua, revelando os tons usados no dia, assim como a falta de saneamento básico no final dos 1970 em Camocim.
            Os mosaicos fazem parte das minhas lembranças de adolescente, num tempo em que ter uma casa com mosaico era sinal de status. Quando minha família mudou-se para a Rua do Egito (atua Rua 24 de Maio) em meados da década de 1970, contavam-se nos dedos as casas que tinham ao menos uma sala "emosaicada". A maioria das casas tinham como piso uma espécie de tijolo quadrado, que alguns chamavam de ladrilhos. Quando meu pai melhorou de situação financeira, tratou logo de colocar mosaicos na casa, feitos na fábrica acida referida, com desenhos simples e duros de "dar brilho". Quando mamãe cismava de dar um trato no piso, a operação tomava um dia inteiro de trabalho envolvendo os membros da família e vizinhos. Lavava-se a casa com muita água, sabão e outros produtos ácidos. Depois, era um tal de passar Cera Cachoupa (acho que era assim que se escrevia) com panos de flanela por toda a casa. Á falta de enceradeira, improvisava-se o polimento com panos de sacos maiores onde as crianças menores sentavam em cima e eram puxados pelos maiores. O atrito do pano com o peso da pessoa funcionava como polidor. Era um serviço puxado, mas também de brincadeiras, de apostas das duplas para quem chegava primeiro no final marcado.
            Mas o que me impressionava mesmo era o piso da Igreja Matriz, com seus mosaicos bem trabalhados e rebuscadas formas. Quase sempre me perdia naqueles labirintos de desenhos, buscando conexões geométricas outras, para além do que estava disposto, desde que o Monsenhor José Augusto da Silva deu por terminada nossa Matriz, na primeira década do século XX. Passou-se o tempo do mosaico, ou melhor, outros tipos de piso entraram em moda, facilitando a limpeza e inaugurando outros gostos fundamentados em lajotas monocromáticas e esmaltados brilhantes. Veio um frade que transformou tudo aquilo em pó, retirou o teto de madeira e substitui por PVC e ainda mudou a data da festa do nosso padroeiro Bom Jesus dos Navegantes com a conivência dos conselheiros e dos fieis paroquianos.
            Mas essa crônica quer falar de mosaicos... Ainda bem que em Barbalha, essa arte e ofício não morreu e continua resistente.


quarta-feira, 15 de abril de 2015

PINTO MARTINS - O HERÓI E A COMENDA



Euclides Pinto Martins FONTE:http://www.fernandomachado.blog.br/novo/categoria/de-volta-para-o-passado/page/82/
            Falar sobre os feitos heroicos de Pinto : Martins na aviação, o filho ilustre da nossa terra, seria repetitivo. Gostaríamos portanto, de abordar uma outra questão: a memória e a preservação dela como elemento da nossa identidade.
            Pensando nisso, fizemos uma série de denúncias nos jornais locais feitas por nós, sobre o abandono do monumento e a biblioteca que levam o nome de Pinto Martins. Sensibilizada com a questão, imagino, a administração de então no ano de 2008, resolveu instituir a criação do Dia de Pinto Martins e a Comenda Pinto Martins, em homenagem ao nosso ilustre aviador. Como se pode ver, a importância de uma figura histórica para uma comunidade pode ser medida quando, em nome dela, se homenageiam outras tantas. No entanto, isso parece ser mais uma iniciativa ou obra que está indo para aquele quadro do "já teve".       
            Em 2008 estivemos na solenidade inaugural para falarmos sobre o feito aeronáutico de Pinto Martins e a tripulação americana do voo pioneiro entre Nova Iorque e Rio de Janeiro em 1922. Entre os agraciados da noite com a Comenda Pinto Martins estava um sobrinho neto do aviador que veio do Rio de Janeiro para receber a honraria, o Professor Valmir Rocha, autor do Hino à Camocim e o ex-prefeito Dr. José Maria Primo de Carvalho.  De 2008 até 2011, várias pessoas, camocinenses ou não foram agraciadas com o que se chamava na época a maior comenda do município, como podemos conferir na lista abaixo:

Ano de 2009 - Dr. Raimundo Silva Cavalcante - Advogado, Raimundo Bento Sotero - Escritor e Poeta, José Osvaldo Angelim - Comerciante e na época Presidente da Associação Comercial.

Ano de 2010 - Dr. Fernando Luiz Pinheiro - Juiz de Direito, Dra. Sônia Cahu Beltrão - Médica ginecologista, Instituto São José - Instituição de Ensino - representada pela diretora Irmã Dulcinda de Jesus.

Ano de 2011- Benedito Genésio Ferreira - Professor Universitário, Tânia Pessoa Navarro Veras - Advogada, Dom Francisco Javier Hernandez Arnedo - Bispo da Diocese de Tianguá.

            Inexplicavelmente, a mesma administração que criou a Comenda Pinto Martins não a outorgou em 2012 e, a partir de então, há um silêncio com relação a isso e a memória do 15 de Abril parece se resumir às atividades escolares de pesquisa, desenho e semelhantes.


segunda-feira, 6 de abril de 2015

A MARIA FUMAÇA NOS TRILHOS DA MEMÓRIA


Outro dia vendo imagens antigas sobre nossa cidade num estabelecimento comercial local, discutíamos com outra pessoa sobre a localização das fotos. A imagem abaixo foi motivo de discordância quando disse que a localização exata dela era a cidade do Ipu, posto que já tinha vista sua referência como sendo do arquivo do historiador e memorialista ipuense, Prof. Francisco de Assis (Professor Melo), que. assim como eu, mantém um blog sobre a história da sua cidade. A Maria Fumaça era de toda a Estrada de Ferro de Sobral, o instantâneo, no entanto, flagra-a em algum momento de sua passagem por aquela aprazível cidade. Aproveitamos e divulgamos uma interessante crônica do Professor Melo em sua página do facebook para evidenciar e esclarecer a questão acima colocada, assim como para a relembrança dos nostálgicos de sempre,  


A Máquina Maria Fumaça! 
(Nº 118)

“Café com Pão Bolacha Não”. Era o barulho provocado pelo andamento de uma carruagem comandada por uma Locomotiva movida a fogo e água mantinha esse reboliço que conhecemos na nossa tenra idade das nossas inesquecíveis Máquinas de trem chamadas Maria Fumaça. 
Ainda hoje perdura vivamente em nossas mentes aquela locomotiva preta com letreiros brancos indicando R.V.C. - Rede Viação Cearense e bem na sua Tromba o Nº da Balduína que aqui nos referimos a de Nº 118 por ter servido de antonomásia para certa mulher que convivia no nosso meio social servindo como doméstica de certa residência e que quando andava por ser muito alta e forte e não muito gorda, era rapidamente a sua marcha e quando partia para o andar mais veloz tinha-se a impressão de uma das arrancas das nossas M.F.

Devido a sua manutenção ser a água e a lenha em cada estação existiam várias caixas d’água para o abastecimento das mesmas. Quando as mesmas estavam se abastecendo dizíamos: “O trem está tomando água”, era a Maria Fumaça que estava enchendo o seu tanque para continuar viagem.
Era o trem mais demorado, o que dava tempo para o embarque dos passageiros e desembarque, para descargas de encomendas e para os famosos bate-papos com os viajantes conhecidos que por aqui passavam.

Não tardava e um apito fino, agudo era ouvido. Era o primeiro sinal que Máquina estava abastecida e pronta para seguir viagem. 
Todos se apressavam para tomar os seus assentos e continuar viajando naquela bucólica “Café com Pão Bolacha Não” até o seu final destino. 
Antes soltava o jato de fumaça que cobria quase toda praça. Era um espetáculo a parte e o medo para criançada que assistiam o fumaceiro. 
Mas outros apitos e comboio eram sacudidos com forma de se aprumar e seguir o seu destino. O agente da estação dava a partida final e o trem ia embora, deixando até hoje saudades imorredouras das manhãs, das tardes que consideramos fagueiras, ditosas e benditas para nós ipuenses que amamos verdadeiramente a nossa terra e que valorizamos e sentimos o valor de cada episódio por nós vividos.

Acabou-se o Trem com a nossa Maria Fumaça e a nossa Máquina a Óleo.


quinta-feira, 5 de março de 2015

BARROQUINHA E CAMOCIM - HISTÓRIAS DA EMANCIPAÇÃO




Praça da Matriz. Barroquinha-CE. Fonte: www.blogwiltonveras.com

Numa sexta-feira, dia 12 de Fevereiro de 1988, no caderno Cidades do jornal O Povo, o jornalista Lúcio Brasileiro em sua coluna espinafrava:

 "Mais um
 Querem tirar Barroquinha de Camocim, quer dizer, vem aí um daqueles irresponsáveis e demagógicos plebiscitos".

Nada melhor do que o tempo para mostrar o quanto nossos juízos de valor, arquitetados no calor da hora ou na ideologização das mentes são volúveis. Não digo que um processo de emancipação de um lugar não comporte interesses políticos, econômicos e até demagógicos e, no caso em tela, todos sabem desses interesses, mas, não fosse esse expediente, como estaria a tosca vila avistada por pescadores náufragos que um dia chamou-se Paço Imperial, tem como padroeira Nossa Senhora dos Navegantes e foi distrito de Camocim até 1988? Hoje, as normas e regras para a emancipação de municípios estão mais rígidas. No entanto, hoje, talvez não se encontre um barroquinhense que veja no ato de criação do município, incentivado por filhos do município mãe Camocim e confirmado pela população de Barroquinha em plebiscito, como o renomado jornalista, que à época julgou ser um ato irresponsável.



Fonte: Jornal "O POVO",  Caderno CIDADE, Sexta-feira, p. 8, 12/02/1988