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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

XV SETEMBRO CAMOCIM. IGREJA EVANGÉLICA ASSEMBLEIA DE DEUS. 4

 

Assembleia de Deus Camocim. Rua Santos Dumont, 2124. Fonte:http://adcamocim.blogspot.com/

    Esta postagem vem direto do "Baú do Osmundo", nome pelo qual denominei os papéis a mim confiados pelo memorialista Osmundo Campos e se referem a Igreja Evangélica Assembleia de Deus, Templo Central, escritos em 24 de abril de 1979 pelo Pastor João Mozart Pereira, para ser utilizado em boletim comemorativo do  Centenário de Camocim. Aqui transcrevemos um breve resumo:

"Dados Históricos da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Camocim. Rua Santos Dumont, 853. Camocim. Estado do Ceará.

Fundador: Orlando Sousa Boyer. Os primeiros crentes: Dr. Saraiva Leão. João Ferreira Ferro, Luís Alves Ribeiro. Sotero Lopes e Honorina Rodrigues Guimarães.

Os Boyer veio ao Brasil como missionários. Chegaram primeiro em Belém do Pará. com o plano de fundar trabalho evangélico, isto em 1927, daí foi ao Estado de Alagoas. Vindo em visita ao Estdo do Ceará, chegou em Camocim como visitante no dia 13 de setembro de 1932 e em 9 de agosto de 1933. Veio como chamado pelo o Ilmo. Sr. Dr. Saraiva Leão. Nesta altura o missionário iniciou a sua tarefa de trabalho de ganhar almas para o Reino de Deus. 

Com os primeiros frutos de cinco conversas, arranjou um salão para ponto de pregação do Evangelho e da Doutrina da Vida de uma pessoa salva. Atos dos Apóstolos, capítulo 1.v.8. Testemunha do Nazareno. Conseguiu na Rua da Independência, digo, na Rua Santos Dumont, 611, com quina da Independência; onde hoje é o Tiro de Guerra. Funcionou os trabalhos todos os dias normais até o dia 8 de julho de 1962 que o Pastor Antonio Rodrigues de Lima, assumimos o Pastorado desta Igreja.

Vendo logo a necessidade de um local de propriedade da Igreja para celebração dos cultos as Deus vivo e todo poderoso. O Pastor Antonio Rodrigues de Lima chegou em Camocim a 19 de março de 1957. Nesta altura, já tinha passado por aqui como pastor, os seguintes obreiros: Domingos Freitas de Campos. João Antunino da Paz, Joseni Sales, João Nepomunceno, Beijamim Ramos de Oliveira, Antonio Barbosa, Manoel Francisco de Almeida. José Freires de Alencar e no dia 19 de março de 1957 o Pastor Antonio Rodrigues de Lima chegou como pastor deste campo, que tinha seus limites nos seguintes lugares: Uruóca a Chaval.

[...]". 

    Algumas curiosidades neste relato: 1. O nome americano do missionário era Orlando Spencer Boyer, que o autor do relato aportuguesou "Spencer" para "Sousa", 2. Na relação dos primeiros crentes, termos a pessoa de Sotero Lopes, um conhecido comunista em Camocim. Teria ele se convertido ao credo cristão ou saído da religião para integrar as hostes do comunismo? 2. Desconhecia que o primeiro salão da Assembleia de Deus ter sido na casa onde nasceu o empresário e político José Dias Macedo, que depois foi a sede do Tiro de Guerra e hoje é o Colégio Georgina Leitão Macedo.

    Continuaremos o relato em postagem posterior...

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

COMUNISMO EM CAMOCIM NO LIVRO "NAS TRILHAS DO SERTÃO", VOL.7

 

Convite de lançamento do livro Trlhas 7. Fonte: Editora Sertão Cult. 2023.



Há dez anos nos reuníamos na Bica do Ipu  (entre respingos e pingas) para tratar de um sonho audacioso: publicar uma série histórica a partir do interior do Ceará. Nascia ali o Grupo Outra História e o Projeto Editorial "Nas Trilhas do Sertão: escritos de cultura e política nos interiores do Ceará". De lá para cá, SETE CAMINHOS foram trilhados. De início um passo cauteloso, não mais do que uma légua historiográfica, do tamanho do nosso fôlego. Depois buscamos outras veredas e hoje já podemos dizer que trilhamos outros e variados territórios, outros sertões brasileiros.

Como sempre, em janeiro, sob as bênçãos de São Sebastião e de Clio, nos reunimos no mesmo lugar para avaliar a jornada e planejar a próxima viagem, renovar os sonhos, molhar a palavra e imaginar a escrita.

Neste sentido, convido a todos para o convescote de lançamento do livro "NAS TRILHAS DO SERTÃO: ESCRITOS DE CULTURA E POLÍTICA DO CEARÁ. V. 7, composto por 12 artigos de vários historiadores cearenses que trafegam pela história política do século XX em variadas abordagens  e nas experiências cotidianas calcadas na oralidade sertaneja.

Neste volume, participo com o artigo: CEM ANOS DE COMUNISMO NO BRASIL: ONDE CAMOCIM ENTRA NESSA HISTÓRIA? Ainda tenho alguns exemplares comigo para quem quiser adquirir o livro físico em Camocim.

sábado, 16 de outubro de 2021

RAYMUNDO SOARES VASCONCELOS - UM ESTIVADOR DE CAMOCIM NO PORTO DE SANTOS

 

Coleção "O Comunismo no Brasil". IPM 709. 4.vols. Fonte: Biblioteca do Exército.

    Uma pesquisa nunca termina. Mesmo dando por terminado uma tese de doutorado, sempre alguns aspectos ficam para se esclarecer posteriormente. Foi o que aconteceu comigo em relação à detalhes sobre alguns trabalhadores camocinenses que saíram daqui e foram buscar trabalhos em outros portos do país, especialmente, Santos-SP. Um deles foi Raymundo Soares Vasconcelos. Na época da escrita da tese, dissemos sobre ele o seguinte:

Dos portos do país, um dos mais visitados pelos trabalhadores camocinenses em serviço era o de Santos. Com efeito, as ligações com o Sindicato dos Estivadores de Santos eram mais estreitas, a ponto de alguns desenvolverem militância política dentro desse sindicato ou fora dele. Na memória de alguns estivadores está viva a trajetória de Raimundo Soares Vasconcelos, que partiu de Camocim em busca de trabalho no Porto de Santos e chegou a presidir o sindicato da categoria na cidade paulista, além de ter facilitado o ingresso de companheiros naquele porto durante a década de 1960. (SANTOS, 2014, p.175).

    Como se sabe, existia entre os estivadores de todo país uma forte militância comunista e Raymundo Soares Vasconcelos e Aloysio Soares Vasconcelos, vulgo “Ceará” (provavelmente parente de Raimundo), acabaram participando e sendo fichados como comunistas. Aloysio, por exemplo, foi preso em 1948 por “agitação comunista”, pelo Departamento Estadual de Ordem Política e Social - DEOPS de São Paulo (SANTOS, 2014, p.175).
    Na época da escrita da tese, não encontramos maiores detalhes sobre Raymundo Soares Vasconcelos, apenas o prontuário de Aloysio no DEOPS, acima referido. No entanto, chega às minhas mãos, através do sempre prestimoso amigo livreiro Francisco Olivar (Vavá), o INQUÉRITO POLICIAL MILITAR - 709, produzido pelas forças de repressão, notadamente, o Exército Brasileiro. O famoso IPM 709 é o trabalho mais completo realizado pelas autoridades, não somente pontuado pelos relatórios das atividades dos "agitadores comunistas" elaborados por agentes infiltrados nas várias organizações de trabalhadores, mas, também de análise do movimento comunista, suas organizações, métodos, ligações e infiltrações na sociedade brasileira.



    No segundo volume da coleção vamos encontrar o camocinense RAYMUNDO SOARES VASCONCELOS, no ano de 1962 (o que revela várias décadas de militância dele), presidindo uma reunião do Fórum Sindical de Debates (FSD) de 05 de julho de 1962, um dia após a uma GREVE GERAL na cidade de Santos, cujo informe anexo fala sobre o sucesso da ação, além de ligar os acontecimentos com a aprovação do então Presidente da República e o Comandante do 1º Exército. (O Comunismo no Brasil. IPM 709, p.363).
    Temos, portanto, um camocinense, senão no centro, mas no olho do furacão dos movimentos que envolveram as relações entre trabalhadores e Governo, que acabaram sendo lidas pelos aparelhos de repressão como um perigo de estabelecimento de uma república sindicalista no país com forte inspiração comunista. Aqui não é o espaço para a discussão se isso era uma possibilidade real ou fruto do zelo conservador  e justificador das elites para a decretação do Golpe Civil-Militar de 1964, mas, o de destacar, que um simples estivador, saído de Camocim em busca de trabalho, conseguiu presidir o sindicato do maior porto do país e se tornou um militante importante da causa que abraçou.


Fonte: SANTOS, Carlos Augusto Pereira dos. Entre o porto e a estação: cotidiano e cultura dos trabalhadores urbanos de Camocim-CE. 1920-1970. Fortaleza: INESP 2014.

CARVALHO, Ferdinando de. O Comunismo no Brasil. INQUÉRITO POLICIAL MILITAR 709. 4vls. Editora Biblioteca do Exército, 1966.


sexta-feira, 29 de junho de 2018

A FESTA DE SÃO PEDRO EM CAMOCIM


Procissão Marítima de Camocim. Fonte: Evaldo Carneiro (facebook)

Tida como uma das mais belas procissões marítimas do Estado do Ceará, a Procissão de São Pedro em Camocim anualmente arrebata um grande público por terra e por mar, para reverenciar o padroeiro dos pescadores, Não sei se a procissão é mais antiga do que a Igreja de São Pedro, que, em 1942, teve o templo inaugurado, mas, o seu objetivo foi muito mais do que a elevação de um orago ao santo protetor dos pescadores e das viúvas. Segundo a Carta Aberta do Padre Manuel Henriques, a justificativa da construção da Igreja de São Pedro tinha um componente social e político, notadamente, levar o catecismo católico a uma área carente, além do combate ao comunismo de então. Por outro lado, aproveitamos a data para destacar alguns aspectos cronológicos que se relacionam com a data e com os pescadores de Camocim:

29 de junho de 1942 - Inauguração da Igreja de São Pedro pelo Padre Inácio Nogueira Magalhães. A obra foi iniciada pelo Padre Manoel Henriques. Fonte: 1º Livro de Tombo da Paróquia de Bom Jesus dos Navegantes. 1904-1930. Camocim-CE. p.33).
Na etapa de construção iniciada pelo Padre Manoel Henriques o mesmo dirigiu carta aberta a comerciantes e povo em geral de Camocim pedindo ajuda para a construção do templo católico. Recuperamos uma dessas cartas dirigidas ao Sr. F.Menescal Carneiro. 
Carta Aberta. Pe. Manoel Henriques, Camocim. 1938., Fonte: Arquivo do Blog CPH.

12 de abril de 1967 - Sanção da Lei Municipal Nº 230 de 12 de abril de 1967 pelo Prefeito Municipal de Camocim, Setembrino Fontenele Véras que fez doação de um terreno à Rua da Praia, nesta cidade para a CEARÁ PESCA S/A – COMPANHIA DE DESENVOLVIMENTO, para ser utilizado no prazo de doze meses, para a construção de uma Fábrica de Gelo. 


29 de março de 1973 – Criação do Curato de São Pedro na Reunião do Prebistério realizada em Tianguá.
15 de dezembro de 1994 – Aprovação do Projeto Legislativo Nº 006/94, de autoria do vereador Francisco Martins de Oliveira (Fransquim Bruno) que considera de utilidade pública a Colônia de Pescadores Z-1 de Camocim.

BOAS FESTAS.

quarta-feira, 28 de março de 2018

NOVENTA ANOS DO COMUNISMO EM CAMOCIM



Logomarca de capa do PC do B na rede social facebook. Camocim-CE, 2018.
Como se sabe, o Partido Comunista do Brasil (PCB) foi fundado no Brasil em 25 de março de 1922, "ganhando projeção não apenas como um partido institucional que pautava sua existência para a disputa eleitoral, mas porque procurava manter-se vinculado aos movimentos sociais que emergiam no período", na esteira dos eventos da Revolução Russa de 1917. Segundo os historiadores Ramsés Eduardo Pinheiro de Morais Sousa e José Maurício M. dos Santos (2014):

O partido foi fundado no contexto da Primeira República, onde a política brasileira era hegemonizada pelo pacto político entre as elites mineiras e paulistas, muito embora estivessem ocorrendo mudanças econômicas e sociais no país. Após de sua fundação, o PCB começou a se estruturar pelas várias regiões do país, e logo surgiu em algumas cidades da região nordeste. Em 1927, o Partido é fundado no Ceará e consegue penetrar pelo interior do Estado, se consolidando em algumas cidades importantes, como Camocim (onde foi fundado em 1928), cidade comercial localizada no litoral norte do Ceará a 126 quilômetros da cidade de Parnaíba no Piauí. (SANTOS, 2011) .

Não sabemos a data precisa da fundação do PCB em Camocim em 1928, mas, levando-se em conta uma tradição forte na agremiação comunista em simbolizar o dia 25 de Março para fundar as células do partido, como aconteceu em 25 de março de 1949 em Uruoca,  acredito que deva ter sido em 25 de março de 1928, a data em que Francisco Theodoro Rodrigues (Chico Teodoro), Pedro Teixeira de Oliveira (Pedro Rufino), João Farias de Sousa (Caboclinho Farias), Sotero Lopes, Raimundo Ferreira de Sousa (Raimundo Vermelho), Joaquim Manso, dentre outros, fundaram o Comitê Municipal do PCB em Camocim.

O PCB em Camocim como já disse em outras postagens e livros, teve uma boa acolhida no seio operário da cidade, mas, também muita perseguição política, desde os anos 1930 (Ditadura Vargas) até o final da ditadura civil-militar em 1985, onde se escreveu uma página de dor que dilacerou muitas famílias, cujos chefes aderiram ao "credo vermelho", citados acima, além de outros como Chico Ricardo. 

Após a redemocratização o partido ressurge ainda como PCB, concorrendo às eleições de 1988 com o motorista Haroldo Carvalho de Oliveira, neto de Pedro Rufino. A partir das eleições seguintes, o PCB se tornou PCdoB. Hoje, o PC do B tem dois representantes na Câmara Municipal, os vereadores Oliveira da Pesqueira e James do Peixe. 







Fontes:

“VELHOS CAMARADAS”: contribuição inicial à história do Partido Comunista Brasileiro no Piauí (1932- 1964) RAMSÉS EDUARDO PINHEIRO DE MORAIS , JOSÉ MAURICIO MOREIRA DOS SANTOS.
SANTOS, Carlos Augusto P. dos Santos. Cidade Vermelha: a militância comunista nos espaços do trabalho. Camocim-CE. (1927-1950). Fortaleza: UFC/BNB/TRT-CE, 2007.   

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

III SC 05 - A PESQUISA SOBRE O COMUNISMO EM CAMOCIM

"Historiador faz pesquisa sobre Partido Comunista em Camocim. Fonte: Tribuna do Ceará. 1998. Fortaleza.

Parece que foi ontem, mas já faz mais de quinze anos que iniciamos a pesquisa sobre a experiência ideológica dos militantes comunistas em Camocim. Começou com uma simples informação sobre o apelido que a cidade recebeu por conta dessa militância em Camocim, a "Cidade Vermelha". Daí em diante, com a possibilidade de iniciarmos uma carreira acadêmica, começamos por uma monografia num Curso de Especialização em Teoria da História, na UVA, depois veio o Mestrado em História Social na UFRJ/UFC e, finalmente com desdobramentos no  Doutorado na UFPE. Foram muitas horas, dias, meses e anos nos arquivos de Camocim, Fortaleza e Rio de Janeiro, escarafunchando documentos, lamentando a ausência de outros (principalmente dos produzidos pelo PCB), entrevistando pessoas (algumas morreram antes de conceder seu depoimento) além das orientações, da leitura de textos, livros e da solidão da escrita, afora as horas furtadas da família. Tudo isso, no entanto, foi compensado com a publicação da dissertação de mestrado e do reconhecimento dos conterrâneos e dos meus pares na academia em inúmeros eventos em que apresentamos os resultados dessas pesquisas. No final de setembro, apresentaremos parte destes textos publicados na imprensa local e alguns inéditos enfeixados em livro (Sobre Camocim. Política, trabalho e cotidiano), juntamente com outros trabalhos dos professores Carlos Manuel e Francisco Rocha. A foto acima marca o início dessa caminhada no ano de 1998, quando fomos entrevistados pelo então correspondente do jornal Tribuna do Ceará em Camocim, Denilson Siqueira.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

CAMOCIM DE LUTO - MORRE O COMUNISTA NILO CORDEIRO DE OLIVEIRA


Sr. Nilo Cordeiro de Oliveira. Fonte: Camocim Imparcial


       Quando me ocorreu que a história dos comunistas de Camocim era um bom tema para uma dissertação de mestrado, mal sabia da complexidade que era mexer com um tema desta natureza. Mais do que me cercar de uma vasta bibliografia sobre os “vermelhos”, era preciso recuperar através da memória, os testemunhos de quem vivera os ideais do credo comunista. Desta forma, logo a pessoa do Sr.Nilo Cordeiro de Oliveira foi me colocada como referência. Mas, quem era aquele homem franzino envolto nas lides de uma oficina mecânica? Era simplesmente um dos filhos de Pedro Rufino, um dos oito “camaradas” que tiveram a coragem, no final dos anos 1920, fundar uma célula comunista em Camocim sob a liderança do prof. Francisco Theodoro Rodrigues. A partir da conversa inicial com o Sr. Nilo, outros nomes foram sendo postos nesta operação de reviver o passado, a maioria deles já morta, no entanto, outros vivos. Francisco Theodoro, não poderia mais falar, mas conseguimos entrevistar sua filha Lenize. Raimundo Vermelho não poderia mais falar, mas seu filho Dedé Vermelho ainda nos disse algo sobre o “Massacre do Salgadinho”. João Ricardo infelizmente partiu antes de nos falar da sua militância. Enfim, foram histórias que traziam não apenas as marcas do estigma do pensar diferente, do ser “comunista” numa sociedade, para usar um termo da época “reacionária", mas, principalmente de dor e opressão vividas por estes homens desassombrados e seus familiares que muito nos comoveu. 
         Hoje, 19 de dezembro de 2012 quem parte é NILO CORDEIRO DE OLIVEIRA, 86 anos. Das entrevistas que fizemos, sem dúvida foi a mais completa, posto que, além de trazer o sofrimento por se defender uma causa, trouxe a convicção ideológica, a certeza daqueles que acreditam numa sociedade mais humana e fraterna, a certeza da vitória do proletariado, do comunismo. O Sr. Nilo da oficina parte para se juntar a outros que pereceram com essa certeza, certeza essa que fez com que acreditasse que um dia o PC do B reconquistasse a cadeira de vereador na Câmara Municipal de Camocim tão bem representada por seu pai Pedro Rufino na legislatura de 1948-1951, afinal realizada no último pleito, com a eleição do Oliveira da Pesqueira, por coincidência membro da família do Sr. Nilo. 
     Que o partido possa honrar com esse mandato legislativo essa convicção, essa certeza destes homens que se foram. 

Requiscat in pace!  




segunda-feira, 25 de junho de 2012

A EDUCAÇÃO EM CAMOCIM - ESCOLA PEDRO APÓSTOLO

Rua 24 de Maio com Igreja de São Pedro ao fundo. Arquivo UVA/NEDHIS,
Em 2012 completarão 70 anos da Festa de São Pedro em Camocim. Como já dissemos em postagens anteriores, a Igreja de São Pedro foi erguida com o objetivo de afastar os fiéis de outras crenças, como o comunismo, além de dotar a região da praia da assistência religiosa e social, que segundo o pároco da época era um local de muita prostituição e pecado. Ao final dos anos 1960 o Serviço de Promoção Humana-SPH através de suas atividades no campo da educação contribuiu, segundo a historiadora Vera Lúcia Silva, para a conquista de "novos adeptos". (p.54). Na Igreja de São Pedro, especificamente e, depois na Casa de São Pedro, funcionou a Escola Pedro Apóstolo (foto abaixo), a primeira escola em um bairro de Camocim, conforme afirmação da historiadora acima referida:
"É interessante frisar que em 1968 o SPH, como foi afirmado anteriormente, em parceira com o SESI, com o Centro Social Evangélico de Camocim – CSEC, com a Colônia dos Pescadores e com a Conferência de São Vicente de Paula, fundou a primeira escola, que nós conhecemos hoje como escola de Ensino Fundamental I, em um bairro periférico de Camocim, a Escola Pedro Apóstolo – EPA. Com a ampliação da entidade, em 1968, é instalada uma secretaria, situada à entrada da Igreja de São Pedro, para realizar a matrícula de novos alunos".
Saliente-se o caráter ecumênico da iniciativa que proporcionou a muitas crianças da época terem acesso às primeiras letras e hoje terem se tornado homens e mulheres atuantes em nossa sociedade, mostrando que quando se quer fazer, é possível submeter as paixões e ideologias para segundo plano. As fotografias abaixo devem mexer com as memórias de quem se utilizou dos espaços da Escola Pedro Apóstolo. Ao tempo em que registramos mais um fragmento da história da nossa educação, que os professores de hoje procurem estudar um pouco da ação de seus colegas que 40 anos atrás eram verdadeiros titãs na tarefa de dar um pouco do que sabiam aos pequenos de nossa cidade, onde formação e pós-graduações era algo impensável. 


SPH-EPA.Alunos defronte da Casa de São Pedro. . Arquivo UVA/NEDHIS.1972.

SPH-EPA. Alunos da Escola Pedro Apóstolo. 1972. Arquivo UVA/NEDHIS.



sábado, 19 de maio de 2012

CATÓLICOS X PROTESTANTES - O EMBATE EM CAMOCIM

Fonte: berearepreciso.blogspot.com
Na mesma conjuntura de repressão às ideias comunistas, o embate entre católicos e protestantes também eram motivos das manchetes dos jornais. Na região norte do Estado do Ceará, quem fazia essa vigilância era a Diocese de Sobral através de seu jornal Correio da Semana. O ideário católico combatia ferozmente as chamadas ideias alienígenas: comunismo, espiritismo, protestantismo, maçonaria, dentre outras. Efetivametne, a chegada de protestantes na região foi marcada pelo combate através da imprensa, do púlpito das igrejas, de procissões e da dissolução dos cultos protestantes na base da pedrada. Em Camocim, os ânimos parecem não terem chegado a tal ponto, no entanto, é sintomático e emblemático o fato do Correio da Semana noticiar a prisão  de um moço mariano que tentou interromper uma reunião protestante:

Prisão illegalíssima
                  Estamos bem informados que o Sr. Tenente Luiz Rodrigues Barroso, Delegado Regional de Camocim, fizera ali no dia 14 deste, uma prisão arbitrária e illegalíssima na pessoa do distincto mariano, jovem Raimundo Linhares.
                 Serviu de pretexto áquella autoridade para essa prisão iujustíssima o facto de ter o rapaz, na noite do dia anterior, batido nalguns caixões, dentro de um muro lateral da casa do seu cunhado, Sr. Ernesto Fontenelle, na occasião em que um magote de protestantes fazia na calçada de uma casa fronteira uma reunião cantaroleira, seguida de seus sediços ataques à nossa fé catholica, ao patrimônio mais caro de nossa nacionalidade. (...) para justificativa de suas arbitrariedades, no caso, allega sempre o dispositivo constitucional que "garante a liberdade de cultos", mas deve também lembrar-se de outro dispositivo da Constituição que diz: "Ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escripta da autoridade competente (o juiz), nos casos expressos em lei".

                 Como podemos perceber os debates ideológicos ou doutrinários entre as religiões atualmente são outros, mas, no passado, professar qualquer ideologia ou culto diferente da hegemonia católica era motivo de repressão, mesmo que a autoridade procurasse exercer a lei. 

Fonte: Correio da Semana - 21 de setembro de 1934, nº 26, p.4. Sobral-CE.
 

terça-feira, 7 de junho de 2011

OS COMITÊS ANTICOMUNISTAS EM CAMOCIM

Vez por outra sou criticado e até desacatado por comentaristas no blog Camocim Online quando o Tadeu Nogueira resolve repercurtir as matérias que se referem à militância comunista em Camocim, postadas no "Pote de Histórias". Uma pesquisa acadêmica séria, apesar de feita por pessoas que tem suas preferências ideológicas, não deve fazer proselitismo. No meu caso, ao enfocar a militância comunista, tive que ver o embate e o combate a essas ideias. Neste sentido, a pedido de meu orientador, escrevi na época o verbete abaixo, incluso no DICIONÁRIO CRÍTICO DO PENSAMENTO DA DIREITA. Idéias, instituições e personagens/ organizadores: Francisco Carlos Teixeira da Silva, Sabrina Evangelista Medeiros, Alexander Martins Vianna. – Rio de Janeiro: FAPERJ: Mauad, 2000, p.91-2.

COMITÊS ANTI-COMUNISTAS

Surgem no Ceará como conseqüência da campanha anticomunista promovida em especial pela Igreja Católica através de seus jornais, principalmente, O Nordeste de Fortaleza e Correio da Semana de Sobral. Desde a década de 1920 a reação católica ao comunismo no Ceará manifestava-se através de organismos patrocinados e inspirados pela Igreja católica, que se abrigavam nas associações pias (Liga Feminina de Ação Católica, Congregação dos Moços Marianos, Juventude Católica, dentre outras) com o objetivo de combater o chamado “perigo vermelho”, a “hidra de Moscou”, o “regimem de Stalin e Lenin” - expressões estas bastante correntes nas páginas dos jornais acima referidos. (v. Anticomunismo) Exemplo de organização desse movimento denominado Ação Católica foi Liga Eleitoral Católica –LEC, que no Ceará, tornou-se efetivamente um partido político de direita, abrigando os seus mais diversos setores, apoiando e recomendando candidatos, vencendo eleições. (v. Liga Eleitoral Católica no Ceará)

No período da efêmera legalidade do Partido Comunista, experimentada entre 1945-47, os comitês anticomunistas intensificaram o embate de ideologias, uma vaez que pretendiam conquistar o operariado para as suas hostes e, conseqüentemente, evitar que os comunistas plantassem sua semente nas “almas” dos operários. (v. Rerum Novarum) Portanto, para fazer frente às promessas de futuro apresentadas pelos comunistas, a Igreja buscou também realizar alguma ação concreta no sentido de atender materialmente e espiritualmente os “pobres incautos”. (Baderna & LE BOM, Gustave) Por isso mesmo, os comitês anticomunistas eram sempre instalados naquelas cidades onde o Partido Comunista possuía alguma base e desenvolvia algum trabalho de organização e assistência aos operários. A instalação de suas bases se dava após uma “cruzada” de evangelização, que durava por volta de uma semana, durante a qual os religiosos envolvidos visitavam as periferias das cidades, ministrando aulas de catecismo, realizando comícios, instalando postos de distribuição de medicamentos, arrecadando alimentos, entre outras iniciativas. Depois de criado este campo prévio de instalação, eram os comitês que passavam a realizar este trabalho. (v. Ideologia) As Semanas Sociais, como ficaram sendo chamadas esses eventos, tinham na área de jurisdição da diocese de Sobral (zona norte do Ceará) a sua maior penetração, sendo o Monsenhor Sabino Loyola o líder católico de maior proeminência, visto que nessa região, cidades como a própria Sobral, Viçosa do Ceará, Cariré, Crateús e, principalmente Camocim, tinham uma militância comunista bastante atuante. O jornal Correio da Semana teve papel destacado neste processo, dando ampla cobertura a essas semanas de catecismo e a posterior atuação dos comitês anticomunistas, cuja tática era de difundir um terror generalizado sobre os perigos do comunismo através de textos jornalísticos. Notadamente falseadas, as imagens criadas sobre a Rússia Soviética surgiam aos borbotões nas páginas desse jornal que ganhavam ares verossímeis por serem o resultado de supostos relatos de “enviados especiais” que teriam visto in loco as agruras do povo soviético. (v. Alteridade & Inimigo) Assim pareciam justificadas a luta contra o “perigo vermelho” e a organização das semanas sociais, que quebravam o cotidiano das cidades escolhidas para serem o seu palco.

A composição dos comitês anti-comunistas seguia também a tradição hierárquica da Igreja. Se tomarmos como exemplo, o comitê instalado em Camocim, veremos que o mesmo é composto pelas autoridades municipais, membros destacados das famílias tradicionais, enfim, o conservadorismo desde os tempos da LEC. (v. Conservadorismo no Brasil República) É essa composição que deverá agir no sentido de revelar a “verdade” dos fatos sobre o comunismo, são esses membros os “escolhidos” para atuarem junto à população “ignara”, “incauta”, que não sabe discernir sobre sua própria vida e, em determinados momentos, tornam-se o "partido da ordem". (v. Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade & Ação Social Brasileira).

OBS:

Os termos sublinhados são chaves de outros verbetes que de alguma forma remetem ao tema Comitês Anticomunistas, publicados na mesma obra.

FOTO: faperj.br