sábado, 7 de maio de 2011

ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE CAMOCIM


Desde o ano passado que repousa nas mãos da Diretoria da Associação Comercial de Camocim uma pesquisa sobre sua história feita por mim, realizada com o objetivo de se transformar em livro. Enquanto não se decide pela publicação, brindo os leitores do blog com um pequeno fragmento do que o jornal sobralense Correio da Semana noticiou em agosto de 1918. O jornalista P. J. Lima, especialmente enviado para noticiar a inauguração da sede social , assim se reporta sobre o feito dos comerciantes de então:

É um bello predio, elegante, attrahente e confortavel, de construção moderna. Para unir o util ao agradavel, no mesmo predio foi instalado um vasto salão com um palco para representações dramaticas e cinema. Esse salão é muito bem arejado, aspecto agradabilissimo com uma bôa installação de luz electrica e a carborêto. Percorremos todas as dependencias do predio, demorando-nos depois um agradavel palestra com um grupo de moços, propugnadores fervorosos do progresso de Camocim.É desejo dos dignos fundadores da ‘Associação’ addicionar á mesma, para o futuro uma secção especial para os caixeiros que tem por fim a mutua proteção da classe, para a qual haverá um curso nocturno de instrução, á semelhança da ‘Phenix Caixeiral’ de Fortaleza.

Aproveitando a viagem, o jornalista ainda faz ainda algumas considerações sobre alguns melhoramentos que a cidade receberia brevemente, realcionando esses "ares de progresso" com a ascensão da classe comercial da época:

Na praça da Matriz a Prefeitura vae construir um jardim. Em breve a cidade será toda iluminada á luz electrica.Estas ligeiras notas aqui faço sobre o meu passeio a Camocim, não obedece a interesses algum, si não fazer justiça ao merito e ter a satisfação de dizer uma verdade que consola.Não foi portanto com intuitos de melindrar a modestia ou excitar vaedade nesses timoneiros do bem; empolgou-me o entusiasmo que experimentei perante tão bella iniciativa daquelle punhado de moços que honram a Sociedade. Nestas desprentenciosas linhas vae o meu applauso caloroso e os meus os meus parabens sinceros ao povo de Camocim”.

Fonte: LIMA, P.J. de. “Camocim”. Correio da Semana. Anno I, sabbado, 2 de agosto de 1918. Sobral-CE,,p.1.)

Foto: internet

sexta-feira, 6 de maio de 2011

A BANDA DOS SAPATEIROS DE CAMOCIM


A música é um componente da celebração, da comemoração. Neste sentido, tanto os eventos políticos, como sociais quase sempre são abrilhantados com a exibição de bandinhas de música. Em Camocim, uma das mais antigas formações foi a chamada Banda dos Sapateiros. Embora não tenhamos uma comprovação da atuação dessa banda nos movimentos políticos dos trabalhadores urbanos de Camocim, sua existência é recuperada pelo cronista camocinense Inácio Santos. Acompanhemos seu texto:

Tenho cá eu na memória, saudade especial da banda que durante uma época, até por ser única, animava os festejos da terrinha, principalmente a festa do Padroeiro (...) autodenominei ‘bandinha dos sapateiros’, visto que todos, ou pelo menos 90% dos participantes, eram sapateiros de profissão ou já haviam militado nesta arte. (...) Requisitada esporadicamente sempre que havia necessidade, esses artistas reuniam-se e estavam prontos pro que desse e viesse, não havia tempo para ensaios. (...) Outro pormenor interessante é que na bandinha não existia a figura do maestro, todos eram autodidatas da música. Bastavam reunirem-se, trocarem algumas informações e pronto! Estavam afinados. [2]

A Banda dos Sapateiros de Camocim, pelo seu caráter peculiar, informal, parece estar ligada mais ao lazer operário, no caso dos sapateiros, tornando-se um importante elo na vida social do município, do que propriamente atrelada a uma entidade profissional ou, até mesmo inerente à formação da classe. Numa rápida conversa com o Sr. Raimundo Aristides, um dos remanescentes desta banda, descobrimos que os instrumentos eram de propriedade da prefeitura local, mas, os músicos não tinham vínculo com a municipalidade, recebendo apenas gorjetas dos organizadores dos eventos em que tocavam ou em troca de uma boa pinga, como no aniversário do Sindicato dos Portuários.

Contudo, não se pode descartar sua participação nas manifestações dos trabalhadores, visto que, como ressalta o cronista, ela era única na cidade, no período em que relembra. O próprio ex-trombonista, Sr. Raimundo Aristides confirma a participação da banda nos festejos do Primeiro de Maio e nas alvoradas dos aniversários das entidades sindicais, principalmente no dia seis de janeiro, dia dedicado aos portuários.

Continuando a tradição, temos na foto o maestro Miguel regendo uma das alas da Banda Municipal de Camocim, composta somente por instrumentos de sopro, principalmente flautas doces, quando do lançamento do nosso livro "Cidade Vermelha", na CREDE 04, em 2008.


[2] A composição da banda, segundo o cronista era: “No pistom, Truaca, no trombone de pista, Raimundo Aristides, no trombone de varas, Benone, na tuba ou contra-baixo, Sr. Tasso, na trompa, Zé Ribeiro, no sax, Antonio Basílio, no clarinete, João Brito, nos instrumentos de percussão: bumbo acoplado com pratos, o Cabeça, no tarol, Fransquinho Basílio”. SANTOS, Inácio. “A Banda dos Sapateiros”. O Literário, Ano III, Edição 19, setembro de 2001, p. 3, Camocim-CE.

domingo, 1 de maio de 2011

DE OLHO NA RUA - "APERTADA - HORA"


Essa postagem serve também para a seção "Abecedarius camocinensis", assim como para homenagear nosso querido escritor Artur Carneiro de Queirós, do qual fomos beber as informações dessa denominação. É corrente que, antes da sanha nomenclatural dos vereadores ávidos de nomear as ruas com nome de seus parentes e aderentes que a nomeação das ruas era mais criada pela população, atendendo àquilo que mais lhe convinha. Daí, que, por muito tempo e, ainda hoje, convivem a denominação oficial com a tradicional. `Portanto, confiram o que se dizia sobre o trecho de rua que atualmente corresponde às imediações da Assembléia de Deus ao fundos da Igreja de São Pedro:

APERTADA-HORA – Denominação de antigo trecho da Rua Santos Dumont,cruzamento das Ruas Boa Vista (atual D.Pedro II) com Marechal Floriano. Segundo o anedotário da cidade era um trecho mal assombrado. “Local macabro e desabitado, temido por causa das assombrações comentadas. Por ali apenas se passava de dia e, mesmo assim, arredio e desconfiado, com as pernas de sobreaviso para eventual carreira. Á noite, nem pensar. Era necessário um longo contorno por outras ruas, para se evitar o ‘Apertada-hora’,rumo ao centro”.

(Fonte: LOBISOMENS E VISAGENS.In: QUEIRÓS, Artur. Recordações camocinenses e outras memórias.

Foto: Capa do livro "A vida continua... Artur Queirós. 2009.

O PRIMEIRO DE MAIO EM CAMOCIM


Até dez anos atrás, o Primeiro de Maio em Camocim tinha para mim alguma atração do ponto de vista simbólico. Acordava cedo para acompanhar as manifestações anunciadas. Mesmo quando a data se tornou moeda política, era interessante ver e analisar como os grupos políticos faziam uso da data. Reporto-me agora ao que recolhi em minhas pesquisas. Velamos o depoimento de João Ricardo, comunista e ateu convicto sobre o primeiro de maio de antanho:

Naquele tempo nós nos reuníamos para discutir os problemas dos outros. O sindicalismo aqui em Camocim era organizado. Nós éramos convidados para assistir as reuniões de outros sindicatos e associações. Quando um tinha uma questão para ser resolvida a gente dava opinião e fazia um movimento para encontrar uma solução. Os desfiles de Primeiro de maio eram muito bonitos, a passeata ia em todas as sedes dos sindicatos e associações e todo mundo participava. Hoje não, cada um cuida de si e até atrapalham os outros".

Como se sabe, tradicionalmente, o Primeiro de Maio
está intimamente ligado com a história do movimento operário pela conquista do limite de oito horas de trabalho diário, regulamentação do trabalho feminino e de menores, luta por melhores condições de trabalho nas fábricas, dentre outras. A data, por exemplo, é uma alusão a um dos eventos que simbolizou essa luta, o Massacre de Chicago, ocorrido em 1886, onde vários operários foram mortos pela polícia numa manifestação pelo limite de oito horas de trabalho.

A propósito disso, em 1948, as atas da Sociedade Beneficente Ferroviária registram a inicativa do sócio Osvaldo Jorge de Aragão daquelqa entidade adquirir o quadro "Os Oito Mártires de Chigaco" (foto),
cuja compra foi efetuada pela SBF somente em março de 1949 A compra talvez se explique, para além do significado que tal obra, fato e data representam para os trabalhadores do mundo inteiro, a vanguarda da Sociedade Beneficente Ferroviária em promover e articular as festividades do Primeiro de Maio em Camocim.

Contudo, hoje, as comemorações do Primeiro de Maio se ressentem da falta desse aspecto combativo e festivo de outrora. Quando a data recai em algum momento político importante, nacional ou local, as entidades tentam ainda realizar algum desfile. O desfile representa, hoje, não a festa ou a reivindicação do trabalhador, mas o desfilar burocrático das realizações de cada secretaria do governo municipal e das várias escolas “homenageando” um trabalhador sem rosto e sem nome. Outras vezes, organiza-se uma prestação de serviços básicos (medição da pressão arterial, expedição de carteira de identidade, corte de cabelo etc.) numa praça principal e uma disputa de algumas modalidades esportivas. Os sindicatos e associações fazem um caminho inverso, realizando alguma atividade alusiva à data em recinto fechado. Uma alvorada aqui, uma palestra ali, e o Primeiro de Maio vai perdendo seu conteúdo simbólico, sendo um mero feriado.