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| Cartaz !º de Maio. Dia do TRabalhador. Fonte: https://www.aguiabranca.com.br/glossario/datas-comemorativas/trabalho |
Até uma década atrás, o Primeiro de Maio em Camocim ainda me despertava para um dai intenso. Este dia começava antes do sol com as alvoradas anunciadas a foguetes, espocados das diversas direções aonde ficavam as sedes dos sindicatos classistas.
Eu acordava cedo para ver ouvir as vozes das ruas. Havia um certo tom celebrativo ou de protesto, mesmo quando a data já vestia algumas roupas políticas. Ainda assim, era bom espreitar como os grupos de plantão no poder, anunciavam suas verdades naquele dia.
Se desenterrássemos as bandeiras dos velhos líderes trabalhistas, veríamos que houve um tempo em que Camocim tinha uma "central sindical", aonde se discutiam e resolviam os problemas que ocorriam nos postos de trabalho que a cidade oferecia e que a data do Primeiro de Maio era marcada pelos bonitos desfiles que percorriam as sedes das associações e sindicatos, sobressaindo-se a beleza de suas flâmulas e bandeiras.
Como se sabe, o Primeiro de Maio nasceu de um histórico de lutas, das mãos calejadas que sentiram o peso de reivindicar melhores condições de trabalho o tempo todo, relembrando o fato e as apropriações dos "Oito Mártires de Chicago”, que varreu o mundo.
Mas o tempo, esse artesão paciente, transformou o Primeiro de Maio em algo menos alvoroçado, digamos assim. Veio o tempo dos desfiles protocolares retirando da turba o "grito dos excluídos". Virou, por um tempo, vitrine das administrações municipais em seu desfilar burocrático, controlado, sem que algo ou alguém destoasse da música tocada pela banda. Quando muito, a praça se torna uma arena de serviços prestados à população como dádiva (verifica-se a pressão arterial, corta-se cabelo, emitem-se documentos, joga-se bola aqui e ali). Os sindicatos, menos que os dedos da mão, por sua vez, enclausuram-se: uma reunião tímida neste, uma palestra qualquer naquele.
E assim, o Primeiro de Maio vai se descaracterizando, se tornando um feriado mesmo para o ócio doméstico, ou, como este de 2026, abertura de mais um feriadão para gáudio do trade turístico, ou não, se a procura não for boa.
Resta o apelo para a marca "Dia do Trabalhador". Aproveitou-se muito a data para se promover a nova febre em Camocim - correu-se muito à beira-mar. Sem alarde, a memória do "Dia do Trabalho", cansada de carregar tanto peso, resolvesse ressignificar um pouco sua própria luta.
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