quinta-feira, 4 de junho de 2026

O NOVO RELÓGIO DA MATRIZ

 

Matriz de Bom Jesus dos Navegantes. Camocim-CE. Colorizada por IA. Fonte: Arquivo do CPH.


A Igreja Matriz do Bom Jesus dos Navegantes, em Camocim, constitui um dos mais importantes marcos históricos e religiosos da cidade em sua vida centenária. Projetada inicialmente pelo engenheiro da Estrada de Ferro de Sobral, Dr. José Privat — cujos restos mortais estão sepultados na própria igreja. A Matriz teve sua construção consolidada em 1919, durante a administração do Padre José Augusto da Silva, sendo abençoada por Dom José Tupinambá da Frota, então bispo da Diocese de Sobral, à qual Camocim pertencia.

Embora inaugurada em 1919, a torre da Matriz só recebeu seu “grande relógio” em 1953, como consta no Livro de Tombo da Paróquia de Bom Jesus dos Navegantes. Segundo o registro desta fonte, o equipamento chegou à cidade em 23 de maio daquele ano, transportado pelo famoso navio “Aratanha”, como doação da tradicional Família Morel, por iniciativa de Vicente Morel, em homenagem ao centenário de nascimento de seu pai, José Severiano Morel, importante benfeitor da Igreja local. Fabricado em São Paulo pela firma José Michelini & Filhos, o relógio custou cinquenta mil cruzeiros, a moeda corrente da época.

Antes mesmo da chegada do relógio a Camocim, a Câmara Municipal providenciou o agradecimento da oferta, como indica a Ata da Sessão Ordinária de 22 de março de 1953. Nela, o vereador Joaquim Pereira de Brito requereu que se telegrafasse “ao senhor Vicente Morel agradecendo a valiosa oferta de um relógio para a Igreja Matriz, o qual será instalado por ocasião das comemorações do Centenário de nascimento de seu pai José Severiano Morel".

Para a instalação do relógio, a Prefeitura de Camocim (cujo prefeito na época era o Sr. Setembrino Veras) contratou o mecânico Nilton Muratori, de Fortaleza, para realizar a montagem, que terminou a 8 de setembro. Sua inauguração ocorreu em 9 de setembro de 1953, em cerimônia solene marcada por discursos que exaltaram a memória de José Severiano Morel, e apresentaram o relógio como símbolo do progresso urbano da cidade.

Ao longo das décadas, o relógio tornou-se uma das referências mais conhecidas da paisagem urbana camocinense, embora tenha enfrentado constantes problemas mecânicos, permanecendo frequentemente atrasado ou parado, assim como, consertado algumas vezes pelo Sebastiãozinho Relojoeiro, ou pelos mecânicos da Estrada de Ferro João Evangelista de Sousa e Jairo Teixeira Bezerra, fatos lembrados com humor e nostalgia pelos moradores mais antigos.


Em 1976, a Matriz passou por importante reforma em seu teto, graças à mobilização do Lions Club de Camocim, que promoveu bingos e rifas para arrecadar recursos. A campanha reuniu doações de comerciantes, empresários e instituições locais, permitindo arrecadar quarenta e três mil cruzeiros, dos quais cinco mil foram destinados especificamente ao conserto do relógio da igreja. Entre os prêmios ofertados estavam máquina de costura Singer, geladeira Consul, rádio Semp, fogão Jangada, bicicleta Monark, radiola Philips e até um garrote, evidenciando o forte envolvimento da comunidade camocinense nas obras de preservação da Matriz.

2026. Cinquenta anos depois, num momento em que um novo equipamento marcará o passar das horas em nossa cidade, a história do relógio e da própria Igreja Matriz revela não apenas a importância da religiosidade em Camocim, mas também o papel desempenhado pelas famílias tradicionais, pelo poder público e pelas associações civis na construção da memória urbana e cultural da cidade.


Fontes.

2º Livro de Tombo da Paróquia de Bom Jesus dos Navegantes. Camocim-CE, 1953, p. 148 a 149.

3º Livro de Tombo da Paróquia de Bom Jesus dos Navegantes, p.35, 

Livro de Atas das Sessões Ordinárias da Câmara Municipal de Camocim. 1953.

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