sábado, 3 de setembro de 2022

CAMOCIM EM 1908... (XII SETEMBRO CAMOCIM. 2022. nº 2)

 

Camocim Antigo. Painel 2,00 x 1,00 mts. Óleo sobre tela. Eduardo Souza


    Há muito venho perseguindo uma cópia da primeira obra sobre Camocim no século XX. Trata-se do MEMORIAL HISTÓRICO DA CIDADE DE CAMOCIM, escrito por Antonio Philadelpho Pessoa em 1908. Tal obra deve se encontrar na seção Obras Raras da Biblioteca Menezes Pimentel em Fortaleza. Enquanto não consigo, vou me satisfazendo com o que encontro de citação da referida obra em outros trabalhos históricos. 

    No trecho abaixo, temos a descrição da cidade em 1908. Vejamos:

(...) Está situada no litoral a 26 Kilometros da foz do Rio Corehaú e a 9 Kilometros do Rio Camocim, com um excelente porto, o melhor do estado. Este porto é empório comercial das praças de Manaus, Pará, Maranhão, Fortaleza, Pernambuco, Rio de Janeiro e alguns portos da Europa, com a zona ligada pela Estrada de Ferro Camocim-Sobral e vice-versa.

É sede da mesma estrada, onde se acha a estação central, um dos melhores edifícios do seu gênero, com casa de officinas, armazéns: de carga, do almoxarifado, depósito de material rodante, depósito de lenha, uma balança com força de cinquenta toneladas, uma ampla rampa para embarque e desembarque de animaes, e uma caixa d'água com encanamento para a linha ferrea e oficinas.

Além destes edifícios tem a cidade os seguintes uma Egreja Matriz, consagrada ao Senhor Bom Jesus dos Navegantes, em construção, a qual será uma das maiores naves e mais elegantes do estado, quatrocentas e noventa e seis casas construídas a tijolo, afora trezentas e trinta e oito casas de taipa, e um mercado público duas escholas públicas, uma do sexo masculino regida pela professora Dona Maria Carolina Brandão Cela e uma do sexo feminino pela professora Dona Heráclita Theodora de Sá Calado,um instituto municipal dirigido pelo cidadão Raul Rocha, quatro escholas particulares e o collégio "José de Alencar" dirigido por seu proprietário o distincto professor, Francisco Martins Ferreira Telles de Souza, um médico residente, um advogado formado, uma Philarmônica, duas pharmácias, duas officinas de marceneiro, dois construtores de canôas, um calafate, oito carpinteiros, três alfaiatarias, uma ferraria, quatro barbearias, quatro sapatarias, duas fábricas de sabão, cinco trapiches, três agências de navios a vapor, duas de navios a vela, dois escriptórios de comissões e consignações, bancários, um agente ou representante da casa comercial de Pernambuco, dois armazéns de vendas de mercadorias a grosso, quatro depósitos de mercadorias, quatro estabelecimentos a grosso e a retalho, três hotéis, três bilhares, duas fábricas de cigarros, uma de gêlo, setenta estabelecimentos a retalho e quatro padarias.

    Esta breve descrição nos dá uma ideia da estrutura urbana da nossa Camocim no início do século XX, além de outras informações que exploraremos posteriormente.

 

Fonte: PHILADELPHO Pessoa, Antonio. Memorial histórico da cidade de Camocim,p. 34.

Foto: Camocim Antigo. Eduardo Souza.

 

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

A FAÇANHA DE LUIZ GABRIEL. 1879 (XII SETEMBRO CAMOCIM. 2022. Nº1)

Postal. "Ceará. Camocim. Um trecho do Porto". s/d.

     Contam os mais antigos, que por volta de 1790, o velho Gabriel Rocha desembarcou em Camocim para trabalhar como prático da barra e trouxe consigo sua numerosa família. Aqui, com um velho indígena nativo aprendeu os segredos da nossa barra. Ele vinha de Tutóia, Maranhão, onde lá já exercia a mesma profissão. Um dos seus filhos também aprendeu o ofício e continuou o legado de fazer adentrar e sair navios em nosso porto.

    Acontece que o tempo passou e eis que já no final do século XIX, o então distrito da Barra do Camocim passou a município em 29 de setembro de 1879. Desde 1877 que o antigo distrito vinha sendo o epicentro das obras da Estrada de Ferro de Sobral que ligaria nosso porto aos sertões daquela cidade e em sua plenitude atingiria Crateús. Este é o pano de fundo para a história que contaremos hoje na abertura do XII SETEMBRO CAMOCIM e que tem relação com a família Gabriel, pioneira no desenvolvimento do nosso porto, na figura de seu filho, Luiz Gabriel. Assim nos conta o historiador em 1908:

"Em 1879 arribou ao porto de Camocim, um brigue Allemão de grande calado, carregado de materiais para a estrada de ferro. - Informado o Dr. Rocha Dias, do calado do navio, que era de 18 e meio pés, preparava-se para fazêl-lo descarregar fora da barra, com grande aumento de despeza, quando lhe foi informado, por algumas pessoas, que Luiz Gabriel talvez desse entrada aquelle navio.

Chamado Luiz Gabriel e interpellado a respeito, respondeu que no dia seguinte daria resposta e com efeito a deu declarando que daria entrada ao navio decorridos dois dias. (sic)

No dia marcado, pelas cinco horas da tarde o aludido navio, garbosamente entrava e largava ferro no porto de Camocim com admiração e satisfação geral".

O conhecimento prático do prático Luiz Gabriel salvou, digamos assim, que o conhecimento científico do engenheiro Rocha Dias demandasse uma enorme quantia em dinheiro para fazer chegar os materiais para a continuação das obras da ferrovia. 


Fonte: PHILADELFO PESSOA, Antônio; Memorial Histórico da cidade de Camocim, p. 20.

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

XII SETEMBRO CAMOCIM









Monumento. Entrada de Camocim. Fonte: https://camocim.ce.gov.br/pontos-turisticos/monumento-entrada-de-camocim/

Amanhã começa o mês do aniversário de Camocim. 

Neste ano completaremos 143 anos de emancipação política.

 Como sempre acontece, neste mês daremos ênfase no blog com postagens históricas e inéditas. 

Será, portanto, o XII SETEMBRO CAMOCIM. 

Aguardem, pois!

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

O MERCADO DE NOSSAS MEMÓRIAS

 

Mercado Público de Camocim.  Fonte: IBGE.


    Na próxima década nosso Mercado Público vai virar uma construção centenária. Edificada na gestão do interventor Gentil Barreira (1931-1934). Embora tenha sido bastante modificado com os reformas que sofreu, os quatro portões de entrada continuam com sua arquitetura inicial e, de fato, os únicos locais em que a administração pública é responsável por sua manutenção.
    A foto que trazemos hoje retrata um ângulo do lado leste onde pontificou a esquina onde ficava o comércio do Sr. José Ximenes Soares (O Zequinha) como ficou conhecido na sociedade camocinense. Na época, o mercado era ladeado por ruas e as frondosas mangubeiras. Delas, só resta uma para contar a história.
    Entre o mercado e o mercado do leite, a Pedra, imortalizada em crônica pelo escritor Inácio Santos, recebeu no final dos anos 1970 uma cobertura, na gestão do prefeito Edilson Veras, denominado Abrigo de Feirantes, retirado na última reforma para dar lugar a uma rampa de acesso para o piso superior.
    No entanto, uma construção anterior  com o nome de mercado, nos idos de 1890 existiu, provavelmente no mesmo local, resumindo-se em seis quartos, "construído de tijolo e barro no valor de 300$000 cada um".
    Mas o mercado que sobrevive na maioria dos camocinenses nascidos de 1960 para cá e este da foto, que sofreu incêndio na década de 1950 e foi restaurado pelo prefeito Setembrino Veras (1951-1954).
        Segundo os estudiosos as linhas arquitetônicas que ainda podem ser vistas nos portões tem símbolos maçônicos. Com a palavra os especialistas.

Fonte: 1º Livro de Officios Expedidos. Memorial do Legislativo Camocinense.
I

sábado, 23 de julho de 2022

COM QUANTOS CARROS SE FAZ UMA CAMPANHA POLÍTICA?

Relação dos carros da ARENA 1, Camocim-CE. 1972. Fonte: Arquivo Nacional.


        Atualmente o transporte de eleitores é proibido no dia da eleição. No entanto, há décadas atrás era permitido e a "frota" de carros arrebanhados pelos partidos políticos era registrada em cartório com o nome dos seus respectivos donos, tipo de carro e placas para o conhecimento do juiz eleitoral. Dizia-se até que quando o juiz tinha uma tendência política era só não liberar os carros na hora aprazada de uma determinada ala política para a mesma perder a eleição.
    ´Pelas relações dos partidos era possível saber os tipos de carros que circulavam pela cidade e o envolvimento dos seus proprietários com a politica local. 
    Jeeps, kombis, pickups, camionetas, rurais, caminhões, ônibus e até os "automóveis" corcel, variante, dentre outros, eram os carros que circulavaram em Camocim em 1972, fichados pela ARENA 1, que elegeu o prefeito João Pascoal de Melo naquela ocasião. Alguns destes carros ficaram na memória do povo camocinense, para além do uso que tiveram no "dia da eleição".
    Embora que hoje não se transporte eleitor em dia de eleição, os partidos políticos precisam, mas do que nunca de uma frota de carros para outras atividades que são permitidas pela Justiça Eleitoral. E hoje, com quantos e quais carros se faz uma campanha política?

 

quarta-feira, 20 de julho de 2022

PARLAMENTARES CAMOCINENSES. ROCHA AGUIAR

 

Deputado Francisco Rocha Aguiar. Fonte: ALECE/INESP.


        

    Prosseguindo no destaque dos parlamentares camocinenses, trazemos hoje Francisco Rocha Aguiar (Rocha Aguiar). Ano passado se comemorou o seu primeiro centenário. Mais ligado ao município de Ipu-CE, Rocha Aguiar foi deputado estadual mais votado em Camocim nas eleições de 15 de novembro de 1978. A seguir transcrevemos um perfil biográfico editado pela Assembleia Legislativa do Estado do Ceará:

    Nasceu em Camocim/CE a 02.03.1921, filho de Vicente de Paula Aguiar e Maria Virgínia Rocha Aguiar. Faleceu em Fortaleza, a 01.02.2001. Médico. Fez seus estudos iniciais em sua cidade natal e o secundário no Liceu do Ceará, em nossa capital. Formado em Medicina pela Universidade da Bahia em 1949.

 Principiou sua vida profissional na cidade de Potiraguá/BA, onde exerceu liderança política, chegando a ocupar as funções de Prefeito Municipal daquele município. De volta ao Ceará, veio fixar residência em  Ipu, cidade onde desenvolveu sua atividade profissional, propiciando assistência médica sobretudo à comunidade carente daquele município. Exercendo a clínica médica em caráter assistencial, ocupou paralelamente os cargos de Chefe do antigo Serviço Nacional contra a Peste, Chefe do Posto de Bouba do Ministério da Saúde, Chefe do Posto de Saúde do Município de Reriutaba, Chefe da Unidade Regional de Saúde em Pires Ferreira e Médico do antigo IAPFESP – Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Funcionários do Ensino Superior, e do Corpo de Bombeiros.

    Consolidada sua atuação como médico humanitário, sentiu a necessidade de servir a coletividade de forma mais efetiva. Ingressou então na política, filiando-se em 1956 ao extinto Partido Social Democrático – PSD. Eleito Prefeito, exerceu mandato no período de 1967/1970. Sua administração foi pautada por grandes realizações e forte trabalho de cunho social. Sua esposa, Maria Antonieta Rocha Aguiar foi igualmente eleita Prefeita de Ipu, administrando a cidade no período de 1972/1976. Candidatando-se ao Parlamento Estadual nas eleições de 15 de novembro de 1978, recebeu consagração popular representada por 21.332 votos, obtidos nos municípios de Camocim, Chaval, Ipu, Ipueiras, Tianguá, Uruoca, dentre outros, que o fizeram Deputado Estadual. Na Assembléia Legislativa integrou as Comissões de Educação e Saúde, de Transporte e de Constituição e Justiça. 

Fonte: Deputados Estaduais. 20ª Legislatura. 1979-1982. Fortaleza: INESP, 2002, p.88-89..



quinta-feira, 16 de junho de 2022

CAMOCIM NOS LIVROS. MAÍRA, DE DARCY RIBEIRO

 

Capa do romance "Maíra". 10ª edição. Darcy Ribeiro. Editora Record. 1989

. Fonte: estante virtual.


    Já postamos aqui neste espaço matérias sobre a etimologia do nome "Camocim". São vários os estudos e teorias sobre a origem do nome da nossa cidade, sendo objeto de estudo de historiadores e literatos, do porte de um José de Alencar, por exemplo.
    Eu, no entanto, já estou convencido da sua origem tupi, sem muitos rebuscamentos e baseado no que a palavra significa tanto no universo amazônico, quanto no nosso imenso litoral - isto é, "camucim", assim escrito com "u", nada mais é do que um utensílio da forma de um "pote" como tal o conhecemos.
    Portanto, o nosso "camucim", por aliteração, se transformou em "Camocim" e é usado para referenciar um pote (inclusive na literatura alencariana na narração do mito de Iracema), com o qual, as mais variadas tribos indígenas do Brasil, faziam dele variados usos, inclusive o de "enterrar os seus defuntos" como urna funerária.
    Deste modo, destaco hoje como o escritor, etnólogo, antropólogo Darcy Ribeiro faz uso do termo em seu romance MAÍRA. Embora na descrição a cena seja a de um sepultamento de um velho cacique e os cerimoniais decorrentes de tal fato entre os indígenas da tribo Mairum, os "camucins" tem outra utilidade:

"Começa a acumular-se também a carne moqueada de caça e as mantas de pirarucu seco. Muito mais ainda terá que ser caçado e pescado para dar de comer a tanta gente durante todos os dias das festas grandes que virão. Hoje o aroe fez rolar para dentro do baíto quatro camucins enormes, acabados de modelar e de queimar pela velha Anoã. São camucins verdadeiros, grandes como os antigos e bojudos como devem serpara o cauim de caju fermentar bem, espocando. Todos estão primorosamente pintados". ( RIBEIRO, Darcy. Maíra. 10ª edição. Rio de Janeiro, Record, 1989, p. 47-48. Grifos nossos).

    Qualquer semelhança é ótima literatura nacional a confirmar nossa escolha de uma origem etimológica da palavra que condiz melhor com nossa história.


domingo, 5 de junho de 2022

"CEBOLAS PARA CHANTILLY" COM GOSTO DE CAMOCIM...

Orlando Cantuário não é um escritor camocinense, mas, mora e trabalha em Camocim no Campus do IFCE e, além do mais ja comeu e chupou a cabeça de um coró e, portanto, já está irremediavelmente enfeitiçado. Sua obra em grande parte se inspira em Camocim e por isso está na seção "Escritores de Camocim".

Capa de "Cebolas para Chantilly". Orlando Cantuário. 2017.


Ir ao IFCE - Campus Camocim além de ser sempre um prazer é  sinônimo de "ganhar presentes". Da última vez que estive lá não foi diferente. Além do calor humano, acabo sempre trazendo algo interessante para casa. Desta vez trouxe uma "refeição" completa em forma de livro: "Cebolas para Chantilly", do chef e professor Orlando Cantuário.

Trata-se não somente de "Poemas de cozinha experimental", onde o saber gastronômico tempera a têmpera poética do autor, mas, é um livro onde a poesia "experimenta" seus inesgotáveis sabores em variados "pratos" que revelam um poeta, antes de tudo.

Por outro lado, o discurso poético não deixa de ser denunciador da nossa realidade camocinense. Os pescadores, a beira do cais, os peixes não trazem apenas o cheiro de maresia, mas, contém uma crítica social, como se fossem "Vísceras expostas/No tronco á beira mar", quer tornam "O cais cúmplice/ Da despesca/ De homens e mulheres/ Á beir mar", como se fossem "vidas ressequidas/ largadas/Como peixe-gatos", que, no entanto, "... enriquece tão poucos/Que não sabem pescar".

Enfim, o poeta vai filetando versos como quem destrincha uma pescada amarela à moda Tremembé, observando o riso da amada que contém "Os açucares/Extrovertidos/ Que caramelizam/ O dia". Há muito não lia algo em poesia tão gostoso com todos os sentidos do gostar. Não podia ser diferente, pois, como o próprio autor nos diz em "Lavrador", que me lembrou "Cio da Terra" de Milton Nascimento: 

"COZINHEIRO É QUEM POETIZA GRÃOS". 


Serviço:

Livro: Cebolas para Chantilly

Autor: Orlando Cantuário

Ano: 2017

Editora: Nova Aliança. Teresina-PI.