segunda-feira, 30 de setembro de 2019

O FAROL DO CAMOCIM, (IX SC 2019. 15)

Antigo Farol do Trapiá. Camocim-CE, Fonte: Facebook. Raimundo Gomes.


Hoje, 30 de setembro é o dia da Navegação. Neste sentido, um farol é sempre um marco para uma navegação segura. Em Camocim, os homens do mar agradecem esse ponto de luz que os trazem para casa na escuridão da noite. 
Já postamos algo sobre o nosso Farol do Trapiá, com fotografias fornecidas pela Marinha do Brasil. No entanto, hoje trazemos o antigo farol de um novo ângulo. Muito se fala sobre este local na beira da praia. Os mais velhos narram histórias curiosas de assombração, mas também de um tempo em que serviu como salão de festas e local de encontro amorosos.
O escritor Carlos Cardeal em seu romance "O Terra e Mar" (recentemente lançado em sua 2ª edição), o denomina Farol Sem Nome e muitas das cenas do livro tem nele a sua ambientação.
Atualmente, o farol continua lá, com o mesmo nome e função, no entanto, sem o charme da arquitetura de outrora em nome da "força da grana que ergue e destrói coisas belas".

FONTE: "O Terra e Mar".
Foto: Facebook. Raimundo Gomes.

domingo, 29 de setembro de 2019

CAMOCIM E O POETA LÍVIO BARRETO. (IX SC 2019. 14)


"Contos Camocinenses",Tela vencedora do 31º Salão de Artes de Camocim,
pintada por Chagas Albuquerque. 2019.

Para marcar o aniversário de Camocim, trazemos as impressões do maior poeta granjense - Lívio Barreto, escritas numa carta em 1894 enviada a um amigo. Guarda livros em Camocim da Companhia Maranhense de Navegação a Vapor, tendo ainda exercido sua profissão em Granja, Fortaleza e Santa Maria de Belém do Grão-Pará, o poeta se rende ao tédio crepuscular de uma tarde sem a azáfama característica dos portos. O documento dá uma idéia do espaço urbano de Camocim no final do século XIX. A correspondência de escritores cada vez mais vem sendo usada por historiadores como documentos que revelam não só a intimidade destes homens de letras, como de contexto histórico dos espaços onde atuavam.
Lívio Barreto. Lápis de Otacílio Azevedo. Fonte: deliviobarreto.blogspot.com

“Camocim, domingo, 2 de dezembro de 94.
am. Ulysses,

Abraço-te.
Li tua carta e respondo-a. Faço sinceros votos para que a saúde te tenha voltado ao corpo, e com ela a sentillante alegria que sempre iluminou o teu fino e nervoso rosto de bohemio.
Dou-te notícias de Camocim. Não te interessam? Pois tenha paciência. Isto aqui não é sertão nem é serra e assemelha-se à praia. A hora em que te escrevo, 5 da tarde, sopra um vento triste e frio de começo de inverno. A maré escua-se lentamente como n’uma agonia sem lamentos, E por traz das casas baixas d’este burgo o sol se embebe no poente, Esmorecido, sem esplendor, sem a pompa áurea dos acasos de verão.
Para minha frente, o rio (aqui diz-se mar),para as minhas costas o ... matto, e por toda a parte a areia, o pó. Que tédio! No porto o perfil alvacente e incaracterístico de uma escuna norueguesa ou o costado sujo de um vapor pernambucano.
Nos trapiches abandonados, atulhados de fardos de algodão, os rapazinhos pescam à luz moribunda da tarde, saccando d’água peixes pequenos que protestam estorcendo-se á ponta da linha com a fúria de um peixe!
Vista ao largo. A maré de vazante a barra não tem attractivos. É bom de ver-se quando ella enche, as mandas de ondas com suas jubas brancas de espumas, albalroando-se, desfazendo-se para se tornarem a formar, fazendo chegar até nós a surda melopéia longíqua do mar, o coro eterno das vagas.
Ainda á nossa frente, da outra banda, os mangues esbatidos, de um verde escuro á claridade mórbida e triste do fim do dia, trancam o horisonte com a longa sombra de sua folhagem escura, tão densa que atravez d’ella não se vê o sol quando de salteia, de manhã, em curtos vôos lentos uma garça põe com a brancura de sua plumagem uma nódoa de leite n’aquella tela cor de lodo, e rasando a ilha dos mangues, um braço do rio alonga-se matto a dentro, perdendo-se em meandros, esvahindo-se ao longe...
Da Granja, desce uma canoa de vasante, batendo os remos, como barbatanas, esguia e longa, com os seus dois remadores e o seu mestre apoiando o cotovelo sobre a cana do leme immóvel.
E sobre toda essa paysagem incolor, de uma monotonia de missa de dia de fazer, paira a aza pesada e sonnolenta do aborrecimento o mais medonho, do tédio o mais cruel!
Ah! se aquellas nuvens que ameaçam chuva se rasgassem agora, como eu iria me deitar satisfeito, ás 6 horas da tarde, fugindo a este enjôo que envenena como uma despepsia!
Adeus, abraço, etc.
Lívio Barreto”.

(Publicado no “O Literário”. Ano IV-Edição 02. Maio de 2002, p. 2. Camocim-CE).

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

A VALSA CAMOCINENSE. (IX SC 2019. 13)

Partitura da "Valsa Camocinense" de Raimundo Nonato de Araújo (Mundico). Foto: Arquivo Fábio Alves.


Quando Pinto Martins passou por Camocim em 1922, por ocasião do voo pioneiro entre Nova Iorque e Rio de Janeiro, a elite local lhe proporcionou uma festa no salão do Sport Club. A partitura acima é umas das raridades que sobreviveram deste tempo. Trata-se da "Valsa Camocinense", composta por Raimundo Nonato de Araújo (Mundico).  Tal música, conta-se, foi executada na época pela Banda Lyra Camocinense, na aludida festa, sob a batuta do maestro Luís de Moraes.
Hoje, 97 anos depois, a atual Banda Lira irá executar a mesma valsa por ocasião do lançamento do livro "Pinto Martins. Um voo na memória e história do aviador camocinense", no encerramento do 31º Salão de Artes de Camocim.
Segundo o maestro Miguel Arcanjo, além da peça musical contida na partitura, do acervo do pesquisador camocinense Fábio Alves, a mesma se reveste de importância por ter sido feito pelo copista João Inácio da Fonseca, conhecido nacionalmente entre as bandas de músicas, autor de inúmeras valsas e dobrados. Desde 1971 que a Banda Municipal de Maranguape leva o seu nome. 
Agora é só comparecer ao evento para conferir o som!


quarta-feira, 25 de setembro de 2019

O ATELIÊ DE RAIMUNDO CELA EM CAMOCIM. (IX SC 2019. 12)

Casa que abrigou o ateliê de Raimundo Cela. Rua General Tibúrcio. Camocim-CE. 2019. Foto: arquivo do blog.


Quem passa pela Rua General Tibúrcio, entre as ruas Santos Dumont e 24 de Maio, mal sabe que aqueles casarões já abrigaram a casa e o ateliê do renomado artista plástico cearense Raimundo Cela. Nascido em Sobral em 19 de julho de 1890, já aos quatro anos, a família se transferiu para Camocim, por causa da profissão do pai, o espanhol José Maria Cela Mosquera, ele era mecânico e veio trabalhar na estrada de ferro. A mãe era professora sobralense Maria Carolina Brandão Cela, que garantiu o ensinamento das primeiras letras ao futuro artista.
Segundo estudiosos da vida e obra de Raimundo Cela, a transferência da família foi duplamente benéfica para todos: "No novo meio, Camocim, no qual Cela passou a viver, no aspecto climático, físico e humano, ambiente onde Cela completaria sua infância e adolescência, diferente do anterior, deve ter tocado a sensibilidade, aberta à vida, de Raimundo Brandão Cela. Em Sobral, o calor era agressivo, o horizonte geologicamente fechado. Em Camocim, o clima ameno e suavizado pela brisa e perfume marinho. [...] As praias bonitas com seus recantos e ilhas, os barcos insinuando viagens longínquas, sonhos, desejos e o porto tentando com seu movimento de chegada e saída dos barcos. O horizonte abria-se pra tudo. O caminho se fazia. se mostrava para todos os lados. Camocim aconteceu na sua vida". (FIRMEZA, Nilo de Brito. (Estrigas). Raimundo Cela. A arte e o tempo. In: Raimundo Cela. 1890-1954. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 2004, p. 16-7).

Praia de Camocim. 1933. Raimundo Cela


Raimundo Cela sai de Camocim para estudar em Fortaleza e, posteriormente, Rio de Janeiro, onde se torna engenheiro geográfico. De lá vai para a Europa em 1920 para aprimorar seus dotes artísticos na França e Espanha. Com problemas de saúde retorna ao Brasil em 1922 e o local mais aprazível para cuidar da sua saúde foi Camocim:
"Preferiu ir para Camocim onde tinha a família perto. Lá, Cela, com a qualificação de engenheiro, assumiu a direção da usina que gerava energia elétrica para a cidade". (Idem, p-28).
A tal usina era a Companhia de Força e Luz de Camocim - CFLC, que fica na esquina da rua General Tibúrcio com 24 de Maio. Afora os trabalhos da usina, Raimundo Cela dedicou-se à sua obra em seu ateliê que ficava atrás dela. Fora dos meios artísticos, pensaram até que ele tinha morrido. Foi redescoberto por Otacílio de Azevedo que esteve em Camocim em 1933 e se maravilhou com o resultado de dez anos de atividade do pintor em Camocim.
Casou-se em Camocim em 1934 aos 44 anos, com a amazonense Eunice Medeiros, de 21. Mudou-se novamente para Fortaleza em 1938 com a família. Em 1945 muda-se novamente para o Rio de Janeiro onde veio a falecer em 1954.
Portanto, quando você estiver comendo espetinhos no Aurélio, saiba que naquele local, este grande nome das artes no Brasil, ali viveu na sua infância e adolescência, com certeza brincou naquele quintal, cresceu e pintou boa parte de sua obra.

Fonte:FIRMEZA, Nilo de Brito. (Estrigas). Raimundo Cela. A arte e o tempo. In: Raimundo Cela. 1890-1954. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 2004




sábado, 21 de setembro de 2019

AS ÁRVORES DE CAMOCIM. MONGUBEIRAS. (IX SC 2019. 11)

A monguba é uma bela árvore tropical, de caule frondoso e copa arredondada, capaz de alcançar 18 metros de altura. Nas florestas tropicais podemos encontrá-la em ambientes brejosos, ou à margem de rios e lagos, o nome científico “aquatica” provém desta característica. Apresenta folhas grandes e palmadas, dividas em 6 a 9 folíolos verdes e brilhantes. As flores são muito bonitas e perfumadas, com longos estames de extremidade rosada e base amarela. Os frutos grandes e compridos, semelhantes ao cacau, contém paina sedosa e branca que envolve as sementes. As sementes da monguba podem ser consumidas torradas, fritas ou assadas, e até trituradas como um sucedâneo do café ou chocolate, e diz-se que são muito saborosas.
Mongubeira na Rua Humaitá. Camocim- CE. Fonte: google maps. 2012.
Afora uma castanholeira centenária que existia no pátio das oficinas da Estrada de Ferro, creio que as mongubeiras em Camocim foram as primeiras espécies a serem plantadas na zona urbana de Camocim. Existiam várias, mas o tempo e o homem quase acabaram com elas. Tenho a impressão que elas demarcavam pontos do perímetro urbano face às suas localizações no traçado antigo da cidade. Atualmente, restam alguns exemplares desta árvore frondosa, da família das malváceas, localizados na Rua da Independência, ao lado do Mercado Público; na Rua José de Alencar, próximo à Caixa Econômica Federal; no lado oeste da Igreja Matriz resta uma e outra na Rua Humaitá, próximo ao Bar do Grijalba. 
Esta tem uma história singular. Localizada defronte de uma residência, o dono da casa um dia achou por bem sacrificar a velha árvore. Mandou fazer uma poda rigorosíssima, deixando praticante o tronco, sem folhas. Não se dando por satisfeito, pois notara que a árvore reagia colocando alguns brotos de fora, tratou de atear fogo na base de uma fenda existente no tronco. Vendo a "arrumação" do sujeito, a turma que estava bebendo no Bar do Grijalba correu lá e impediu o desastre total, entre ameaças ao incendiário, inclusive acionar o IBAMA. Apagaram o fogo e hoje ela ainda resiste como símbolo da persistência, enverdecendo e fazendo sua função de purificar o ar naquela rua.
Falando um pouco mais sobre as monguberias: "As mongubas são árvores de excelente efeito decorativo, amplamente utilizadas na arborização urbana e rural. As plantas jovens envasadas são excelentes para ambientes internos bem iluminados. Os países asiáticos são importantes produtores e exportadores da planta nesta forma. Ela é disposta nos ambientes de acordo com o feng shui e a ela é atribuída reputação de atrair dinheiro e prosperidade. É conhecida como money tree ou árvore-do-dinheiro. Geralmente são vendidas plantas com três ou mais caules trançados para que formem apenas um tronco de aspecto decorativo".

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

MARIA DA PENHA É CIDADÃ DE CAMOCIM. (IX SC 2019. 10)

Sra. Maria da Penha Maia Fernandes, símbolo da "Lei Maria da Penha" recebendo livros de história de Camocim de nossa autoria das mãos da Prefeita Municipal Mônica Aguiar. Fonte: PMC.


Realizou-se ontem na Escola Profissionalizante de Camocim, solenidade bastante concorrida com a presença da Sra. Maria da Penha Maia Fernandes, símbolo da Lei Maria da Penha, que relatou a todos sua história de vida que emocionou a todos, cuja luta inspirou a elaboração da lei contra a violência doméstica. Na ocasião, ela recebeu o título de Cidadã Camocinense, fruto de projeto de autoria do vereador Kléber Trévia Veras. Ainda na oportunidade, o cordelista Tião Simpatia recitou para a plateia o cordel "Lei Maria da Penha". Várias autoridades dos poderes executivo, legislativo e judiciário usaram da palavra para homenagear a palestrante.
A vinda da Sra. Maria da Penha deveu-se a um esforço de organização do blog Camocim Online e sua rede de parceiros. Ao final, para a nova cidadã camocinense foi ofertado dois livros de nossa autoria, "Historiando Camocim" (nosso livro didático) e "Entre o Porto e a Estação", para que a mesma conheça um pouco mais da história de nossa terra.



quarta-feira, 18 de setembro de 2019

A BANDA LYRA DE CAMOCIM. (IX SC 2019. 09)

Alguns integrantes da Banda Lira de Camocim. 2001. Fonte: Revista Seleções.


Uma das instituições centenárias de Camocim é a Banda de Música Municipal que hoje tem o sugestivo nome de Banda Lyra Camocinense, hoje regida pelo músico João Miguel Arcanjo (Maestro Miguel). Segundo alguns documentos, antes de 1920 houve uma banda chamada Harmonia Camocinense que teve seus instrumentos vendidos para o Círculo Católico de Sobral, como informa o fundador da Lyra Camocinense, o maestro Luís de Moraes. Num resumo de sua vida em Camocim, publicado em 1925, o referido maestro escreve:
"Achando-se Camocim sem uma banda de música resolvi ensinar meninos, o que comecei a por em pratica no mez de abril de 1920. No dia 7 de agosto daquele mesmo anno consegui inaugurar uma nova banda de musica sob denominação de LYRA CAMOCINENSE com o numero de 13 musicos, sendo 2 antigos e 11 novos, ensinados por mim, a custo de muito sacrifício".
Neste registro, informa-se ainda que a LYRA CAMOCINENSE tocou na festa em homenagem à Pinto Martins em 1922, quando o mesmo passou por Camocim durante o voo pioneiro New York-Rio de Janeiro.
Dentre tantas formações, destacamos hoje o septeto de sopro da Banda Lyra Camocinense captado pelo fotógrafo da famosa Revista Seleções Bruno Veiga no ano de 2001
Destaque-se em primeiro plano, o Sr. Antônio Pereira da Silva, o nosso Mestre Cazumbi e sua tuba, amante da música e do futebol. Mestre Cazumbi nos deixou em 15 de setembro de 2014, completando cinco anos de ausência física entre nós. Quem são os outros músicos? Segundo o Maestro Miguel que na época da foto já era o regente da banda são Dácio Filho, Antônio de Souza, Francisco das CHagas (Chaguinha), Everson Abreu, Everaldo e Franscisco ds Chagas (Bolinha).
Que no ano do centenário da Banda Lyra Camocinense que ocorrerá no próximo ano, o velho maestro seja lembrado.

Fonte: MORAES, Luís. Resumo histórico da vida de Luís de Moraes desde sua chegada a cidade de Camocim. 1907-1924. Typ. Correio da Semana. Sobral-CE. 1925, p. 7.

terça-feira, 17 de setembro de 2019

SESI CAMOCIM. UM ESPAÇO DE LAZER E SOCIABILIDADE. (IX SC 2019. 08).


Quadra de Esportes do SESI. Camocim-CE. 1981. Fonte: camocim online.
Se ainda estivesse de pé, o Serviço Social da Indústria - SESI. Agência de Camocim, teria completado 49 anos de existência no último dia 10 de setembro. Como sabemos, no ano de 2010 a agência e a sede social do SESI foram a leilão, posto que já haviam sido fechadas há alguns anos atrás, deixando a população camocinense órfã dos serviços que prestava na área social, educacional e cultural.
O auge das atividades do SESI em Camocim deu-se quando da presença do setor pesqueiro em nosso município com firmas especializadas na pesca da lagosta, principalmente. Crianças, jovens e adultos tiveram no SESI um espaço de formação escolar, esportiva e cultural dentro dos vários programas e eventos que todos lembram de bom grado.
Infelizmente, a falta de visão dos detentores do poder político e econômico não souberam dar àquele espaço um destino digno da sua história.Hoje é um lugar que não serve para outra coisa, senão, a especulação imobiliária.
Para fazer jus à história, em 10 de setembro de 1970 foi sancionada a Lei Municipal Nº 283 pelo Prefeito Municipal de Camocim, Setembrino Fontenele Véras, que autorizou a fazer a doação ao Serviço Social da Indústria (SESI), Departamento Regional do Ceará, um terreno para a construção de uma Praça de Esportes e outras edificações, no prazo de um ano, situado entre as ruas Humaitá e Paissandu.

Fonte: Câmara Municipal de Camocim